Nascido para levar um ônibus espacial soviético nas costas, abandonado quando o país que o criou desapareceu, ressuscitado para uma economia de cargas que quase nenhum outro avião podia atender e destruído em Hostomel. A história completa do único Mriya que voou — e do segundo que ainda pode transformar o fim em continuação.

AN-225 Mriya em Hostomel, 2010. Foto: Igor Bubin / Wikimedia Commons, GFDL 1.2.

Tese central: o An-225 não tornou o frete aéreo pesado barato; ele criou uma forma economicamente racional de comprar tempo quando uma carga indivisível travava projetos muito mais caros que o próprio voo.

Prólogo — O avião que continuou enorme depois de virar ruína

Em 3 de abril de 2022, quando fotógrafos puderam voltar ao aeroporto Antonov, em Hostomel, a imagem parecia impossível de reconciliar com aquilo que o mundo conhecia. Sob a arcada retorcida de um hangar, a proa azul e amarela do maior avião em operação da história estava quebrada, queimada e aberta ao tempo. O cockpit que durante décadas tinha cruzado continentes desaparecera numa massa de metal carbonizado. Partes das asas e motores ainda permitiam reconhecer a silhueta. O restante era a anatomia brutal de um objeto que, até poucas semanas antes, parecia grande demais para ser destruído. [8][9]

Dizer que ali “terminou” o Antonov An-225 Mriya é, porém, simples demais. A aeronave UR-82060 foi destruída durante a batalha de Hostomel, no início da invasão russa em grande escala da Ucrânia. Isso é fato. O que não terminou naquele hangar foi o projeto, o conhecimento acumulado por sua equipe, a estrutura parcialmente construída de uma segunda célula e, sobretudo, a pergunta econômica que o Mriya tinha respondido durante duas décadas: quanto vale conseguir mover em horas aquilo que, por terra ou mar, leva semanas ou meses — ou que simplesmente não pode chegar inteiro ao destino por nenhum outro meio? [4][11]

O An-225 costuma ser apresentado como um catálogo de superlativos: seis motores, 84 metros de comprimento, 88,4 metros de envergadura, até 250 toneladas de carga útil nominal e um recorde absoluto homologado de 253.820 quilogramas. Mas os números explicam apenas o tamanho. Eles não explicam por que um avião criado para um programa espacial soviético sobreviveu ao desaparecimento do país que o financiou; por que ficou anos sem voar e depois voltou como ferramenta comercial; por que empresas aceitaram pagar milhões para usá-lo; por que sua tripulação precisava levar consigo uma pequena expedição técnica; nem por que reconstruí-lo continua sendo discutido mesmo quando a planilha econômica pura não oferece uma resposta confortável. [1][3][4]

Esta é a história do Mriya como máquina, negócio e organismo humano. E é também uma história sobre a diferença entre um “avião grande” e uma infraestrutura móvel capaz de alterar o caminho de uma usina, de uma operação humanitária ou de um projeto industrial inteiro.

Hostomel, 3 de abril de 2022. Foto: Oleksandr Ratushniak / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

1. Antes do Mriya havia um problema chamado Buran

O An-225 não nasceu porque engenheiros decidiram disputar um recorde de tamanho. Ele nasceu porque a União Soviética construiu um ônibus espacial e descobriu que o país precisava mover uma nave espacial de dimensões absurdas entre fábricas, centros de teste e o cosmódromo de Baikonur. O Buran, equivalente soviético em aparência geral ao Space Shuttle norte-americano, era parte do sistema Energia-Buran. Componentes de foguetes e o próprio orbitador eram grandes demais para o transporte ferroviário convencional em certas rotas e complexos demais para serem desmontados a cada transferência. A logística passou a ser parte do problema espacial. [1][16]

Antes do Mriya, a URSS utilizou o Myasishchev VM-T Atlant, uma adaptação extrema de um bombardeiro M-4, para carregar seções do sistema espacial sobre a fuselagem. Funcionava, mas a solução tinha limites de massa e dimensões. A próxima etapa exigia uma aeronave concebida desde o início para transportar o Buran completo e partes do foguete Energia — e, em uma ambição ainda maior, servir de primeiro estágio para conceitos de lançamento aéreo como o MAKS. A especificação que levaria ao An-225 foi aprovada em 16 de outubro de 1986; em 20 de maio de 1987, um decreto soviético formalizou o desenvolvimento do aparelho então designado “400M”, mais tarde “402” e finalmente An-225. [1]

O prazo era quase ofensivo. A solução foi não começar do zero. A Antonov já possuía o An-124 Ruslan, então uma das aeronaves de transporte mais capazes do planeta. O Mriya herdaria grande parte da arquitetura do Ruslan: conceitos estruturais, sistemas, cockpit, motores da família D-18T e a filosofia de carga frontal. O novo avião alongaria a fuselagem, acrescentaria uma seção central de asa, ganharia mais dois motores e receberia uma cauda dupla. A razão da cauda bifurcada era funcional: uma carga gigantesca montada sobre a fuselagem — especialmente o Buran — perturbaria o fluxo de ar para uma deriva vertical convencional. Duas derivas afastadas do eixo central mantinham autoridade direcional fora da esteira aerodinâmica da carga. [2][4]

A própria construção revelava o tamanho do programa. A Antonov registra que fuselagem e empenagem foram montadas em Kyiv, enquanto o centro da asa e painéis externos foram produzidos em Tashkent. Para levar essas seções até Kyiv foi necessário outro gigante da própria Antonov, o An-22 Antei. Antes mesmo de voar, o An-225 já dependia de uma cadeia de transporte de aeronaves gigantes para existir. [1]

Le Bourget, 1989: An-225 com Buran. Foto: Ralf Manteufel / Wikimedia Commons, GFDL 1.2.

2. Um An-124 levado além do bom senso — com método

O parentesco entre An-124 e An-225 é visível, mas chamar o Mriya de “Ruslan esticado” esconde a engenharia que tornou a transformação possível. O An-225 alcançou 84 metros de comprimento e 88,4 metros de envergadura. A asa cobria cerca de 905 metros quadrados. Seis turbofans Progress/Ivchenko-Progress D-18T forneciam empuxo, dois a mais que no An-124. O trem de pouso distribuía a massa por 32 rodas. A fuselagem de carga, segundo material técnico da própria Antonov, oferecia aproximadamente 43,3 metros de comprimento útil, 6,4 metros de largura e 4,4 metros de altura; o volume interno aproximava-se de 1.200 metros cúbicos. [1][2][4]

O nariz inteiro podia se abrir para cima. O trem dianteiro permitia que a aeronave “ajoelhasse”, reduzindo o ângulo da rampa e aproximando o piso do solo. Esse ritual, quase animal quando visto de frente, era uma decisão industrial: cargas de cem, cento e cinquenta ou quase duzentas toneladas não são empurradas para dentro de um avião como pallets comuns. Elas chegam em berços, trilhos, macacos, estruturas de distribuição e sistemas de guincho desenhados para aquele único transporte. O próprio avião possuía capacidade de içamento interno na ordem de 30 toneladas, mas operações extremas dependiam de engenharia externa e equipamento especializado. [2][4]

Há um detalhe que sintetiza sua origem espacial: ao contrário do An-124, o An-225 não possuía uma porta traseira de carga. Ele fora otimizado para cargas gigantes e para o papel de transportador externo, não para fluxo rápido de pallets entrando por um lado e saindo pelo outro. Em termos comerciais, isso era uma limitação. Em termos de projeto, era parte do preço de ser uma ferramenta destinada a tarefas que nenhuma aeronave comum receberia. [4][16]

A carga útil nominal divulgada pela Antonov era de 250 toneladas. O recorde homologado pela FAI chegou a 253.820 kg. A velocidade de cruzeiro oficial ficava em torno de 800 km/h e o alcance sem carga podia chegar a 15.400 km; com cargas extremas, o alcance real caía drasticamente e exigia escalas, reservas e planejamento específico. É importante não misturar esses números: “15.400 km” não significa que o avião atravessasse essa distância levando 250 toneladas. Em aviação pesada, carga, combustível, pista, temperatura e altitude trocam massa entre si. [1][3]

Ficha técnica essencial

ParâmetroDados
Função originalTransporte do orbitador Buran e componentes do lançador Energia; estudos de lançamento aéreo MAKS
Função comercialTransporte de cargas superpesadas e superdimensionadas; missões humanitárias e de projeto
Primeiro voo21 de dezembro de 1988, Sviatoshyn/Kyiv
Única célula operacionalUR-82060 (antes CCCP-82060)
Comprimento84,0 m
Envergadura88,4 m
Altura18,2 m
Área alar905 m²
Motores6 × Progress/Ivchenko-Progress D-18T turbofan
Carga útil nominalaté 250 t
Recorde absoluto FAI de carga253.820 kg, 11 de setembro de 2001
Compartimento de cargaaprox. 43,3 × 6,4 × 4,4 m
Volume de cargaaprox. 1.200 m³
Velocidade de cruzeiro oficialaprox. 800 km/h
Alcance operacional sem cargaaté 15.400 km; com carga extrema, muito menor e dependente do perfil
Teto operacional oficial9.000 m
Rodas32
Tripulação de voo comercial típica6: dois pilotos, dois engenheiros de voo, navegador e operador de rádio
Equipe itinerante em missõescerca de 22 pessoas quando incluídos reservas e técnicos, segundo perfil Smithsonian de 2021

3. Desenho técnico: por que ele tinha aquela forma

O desenho em três vistas do An-225 é mais esclarecedor que muitas fotografias. De cima, a asa mostra o centro ampliado necessário para acomodar os dois motores adicionais e a enorme distribuição de sustentação. De frente, seis naceles dominam a largura da aeronave. De lado, a fuselagem longa revela o espaço criado para carga interna enquanto a superfície superior permanece relativamente limpa para o transporte externo. Atrás, as duas derivas se elevam nas extremidades do estabilizador horizontal como uma solução aerodinâmica para um problema logístico. [17]

O Mriya não era um experimento extravagante sem base tecnológica. A escolha de reaproveitar sistemas do An-124 reduziu risco e encurtou o desenvolvimento. O Smithsonian registra que a aeronave ficou pronta em aproximadamente três anos e meio; ao mesmo tempo, ex-integrantes do programa lembram que isso não eliminou o risco técnico. O que o An-124 já havia resolvido — controles, pressurização, potência, motores, grandes estruturas — permitiu que a equipe concentrasse esforço no que realmente era novo: escala, asa, distribuição de cargas, cauda e integração do Buran. [4]

Essa reutilização explica também a possibilidade de ressuscitar o avião anos depois. Um veículo totalmente único seria quase impossível de manter. O An-225, embora único como célula, compartilhava uma família técnica com o Ruslan. Motores, conhecimentos, processos, equipamentos e parte da cadeia de manutenção continuavam vivos porque An-124s ainda voavam. A singularidade do Mriya estava apoiada em uma espécie de ecossistema Antonov.

Desenho ortográfico do An-225. Cuculcan / Wikimedia Commons. Domínio público.

4. 21 de dezembro de 1988 — o gigante sai do chão

Em 30 de novembro de 1988, o An-225 foi apresentado fora da linha de montagem. Três semanas depois, em 21 de dezembro, decolou do aeródromo de Sviatoshyn, em Kyiv. A Antonov atribui o comando do primeiro voo a Oleksandr Galunenko — grafado em algumas bases internacionais como Olexander Halunenko. A equipe de ensaio incluía Sergii Gorbik como copiloto, Sergii Nechayev como navegador, Oleksandr Shuleshchenko como engenheiro de voo sênior, Volodymyr Gusar como engenheiro de voo, Vyacheslav Belousov como operador de rádio e Mykhaylo Kharchenko como engenheiro-chefe de ensaio em voo. [1]

Esse grupo é importante porque o Mriya nunca foi uma máquina de “dois pilotos e um computador”. A cabine refletia a filosofia soviética de grandes transportes: funções separadas, especialistas para navegação, engenharia de voo e comunicações. Em operação comercial posterior, a configuração típica citada pelo Smithsonian era de seis tripulantes de voo — dois pilotos, dois engenheiros de voo, navegador e operador de rádio. Em viagens longas, porém, o avião carregava muito mais gente. Somando tripulação reserva e pessoal técnico, a equipe que cruzava o mundo podia chegar a cerca de 22 pessoas. [4]

Galunenko participou do desenvolvimento e mais tarde descreveu a aeronave como pesada e inercial nas manobras, mas não como um monstro imprevisível. Esse contraste é revelador. Do lado de fora, o An-225 parecia desafiar a escala da aviação. Para quem o pilotava, ele continuava obedecendo a aerodinâmica, procedimentos e limites. A grandeza não vinha de magia; vinha de engenharia disciplinada. [13]

A primeira tripulação

NomeFunçãoPapel histórico
Oleksandr/Olexander Galunenko (Halunenko)ComandanteChefiou o primeiro voo; comandou voo recorde e retorno após restauração em 2001.
Sergii GorbikCopilotoIntegrante da primeira tripulação; comandou o primeiro voo comercial em 1990.
Sergii NechayevNavegadorPrimeira tripulação de ensaio.
Oleksandr ShuleshchenkoEngenheiro de voo sêniorPrimeira tripulação de ensaio.
Volodymyr GusarEngenheiro de vooPrimeira tripulação de ensaio.
Vyacheslav BelousovOperador de rádioPrimeira tripulação de ensaio.
Mykhaylo KharchenkoEngenheiro-chefe de ensaio em vooPrimeira tripulação; mais tarde ligado à direção das operações de transporte Antonov.

5. Um voo, 110 recordes e um Buran nas costas

Em 22 de março de 1989, com 156,3 toneladas de carga, o Mriya realizou um voo de 3 horas e 45 minutos que a Antonov registra como responsável por 110 recordes mundiais de velocidade, altitude e capacidade de carga. Era a maneira soviética de demonstrar que o novo avião não apenas existia: ele podia transformar massa em desempenho mensurável. [1]

Em 13 de maio de 1989 veio a imagem que definiria o avião para sempre. O An-225 decolou de Baikonur com cerca de 60 toneladas de Buran fixadas sobre a fuselagem. A combinação realizou 13 voos de ensaio. Um mês depois, em Le Bourget, a aeronave apareceu diante do público internacional carregando o orbitador. Mesmo para uma era acostumada a Concorde, 747, bombardeiros estratégicos e ao próprio Space Shuttle, a cena parecia desenhada por alguém que havia exagerado a escala. [1][4][13]

A fotografia de Ralf Manteufel no Paris Air Show é uma das imagens mais importantes da história do Mriya porque mostra sua razão original de existir. Sem Buran, a cauda dupla, a fuselagem estendida e os seis motores parecem apenas escolhas de um cargueiro extremo. Com Buran, tudo se encaixa. O avião era uma infraestrutura do programa espacial, uma ponte aérea entre a indústria soviética e o cosmódromo. [13]

A ambição ia além. Em 1991, a Antonov apresentou na sede da Agência Espacial Europeia uma configuração do Mriya com o conceito britânico Interim HOTOL. O An-225 também era associado ao sistema MAKS, no qual funcionaria como plataforma de lançamento aéreo. A aeronave poderia ter se tornado algo próximo de um cosmódromo móvel. A história tomou outra direção. [1]

6. O país desaparece; o avião fica

Em maio de 1990, ainda antes do fim da União Soviética, o An-225 realizou seu primeiro voo comercial, transportando um trator T-800 de mais de 110 toneladas de Chelyabinsk para Yakutia. Era uma amostra de uma segunda vida possível. Mas a missão central continuava vinculada ao espaço. Quando a URSS se dissolveu em 1991 e o programa Buran perdeu sustentação política e financeira, o Mriya ficou sem o problema para o qual havia sido construído. [1]

A situação é um estudo clássico de ativos especializados. Um avião comum pode mudar de rota ou operador. O An-225 carregava custos fixos enormes, seis motores, manutenção rara e uma capacidade que quase nenhum cliente precisava regularmente. O Smithsonian registra que, em abril de 1994, após 339 voos e 671 horas de voo, seus motores foram removidos e a aeronave entrou em armazenamento. [4]

Por vários anos, o maior avião do mundo foi essencialmente uma promessa estacionada. Isso também explica por que a segunda célula nunca foi concluída. Não basta perguntar se é tecnicamente possível construir outro An-225. É preciso perguntar se há carga suficiente, durante anos suficientes, para pagar sua existência. Enquanto o primeiro avião permanecia disponível — mesmo parado — a justificativa econômica para terminar o segundo era fraca. Décadas depois, Dmytro Antonov resumiria o problema de forma prática: o Mriya voava muito menos que os An-124 porque as cargas que somente ele podia levar eram raras. [11][12]

O paradoxo estava armado. A aeronave era valiosa precisamente porque quase nada se parecia com ela. E era difícil de rentabilizar exatamente porque poucas cargas exigiam algo tão extremo.

7. A ressurreição de 2001 não foi nostalgia — foi mercado

No fim dos anos 1990, propostas começaram a chegar de empresas como Siemens, General Electric e Airbus. O mundo da energia, de turbinas, geradores, equipamentos industriais e aeroespaciais produzia peças grandes demais para cargueiros convencionais. O transporte marítimo continuava mais barato por tonelada, mas projetos de bilhões de dólares descobriam outro custo: o tempo. Uma peça crítica parada num porto, atravessando semanas de mar ou esperando uma rota terrestre podia atrasar uma usina inteira. [4]

Foi nesse contexto que a Antonov decidiu transformar uma aeronave espacial soviética em cargueiro comercial global. A modernização incluiu sistemas de rádio atualizados, equipamentos para cumprir regras internacionais, sistema anticolisão, reforços no piso e na rampa e novos motores D-18T. Em entrevista posterior, Galunenko afirmou que mais de US$ 20 milhões foram investidos na restauração; uma publicação ucraniana de janeiro de 2001 também registrou aproximadamente US$ 20 milhões financiados por Motor-Sich e Antonov e a instalação de seis novos motores. Em 7 de maio de 2001, Galunenko voltou aos comandos no primeiro voo após sete anos de inatividade. Em 26 de maio, a aeronave recebeu o certificado de tipo necessário à nova vida comercial. [1][13]

Essa é uma das viradas mais interessantes da história industrial do An-225. A máquina não foi “preservada” como peça de museu. Ela foi reengenheirada para vender horas de capacidade que nenhum concorrente possuía. O Mriya passou de infraestrutura de um Estado para infraestrutura de projetos privados, governos e operações humanitárias. [4]

8. 11 de setembro de 2001 — 253.820 quilogramas

Poucos meses depois do retorno, o An-225 demonstrou o novo limite. Em 11 de setembro de 2001, decolou com uma carga total homologada de 253.820 kg. A FAI mantém o feito como recorde mundial absoluto de maior carga transportada por uma aeronave e registra também, para a mesma campanha, marcas de altitude e velocidade com cargas enormes. A Antonov informa que naquele dia foram estabelecidos 124 recordes mundiais e 214 nacionais em diferentes categorias. [1][3]

O número precisa ser interpretado corretamente. Os 253,82 toneladas constituíram uma carga de recorde, preparada para demonstrar capacidade, e não devem ser confundidos automaticamente com o maior frete comercial. Em 16 de junho de 2004, a Antonov levou 247 toneladas de carga comercial — quatro máquinas para assentamento de tubos — de Praga a Tashkent, estabelecendo seis recordes. [1]

Essa distinção entre recorde técnico, carga comercial total e peça única é importante porque a história do An-225 está cheia de números repetidos sem contexto. O avião carregou 253,82 toneladas em uma campanha de recordes; transportou 247 toneladas em um voo comercial de 2004; e, em 2009, tornou-se célebre por transportar a peça individual mais pesada por ar, um gerador de aproximadamente 187,6 toneladas, cuja montagem de transporte com estrutura elevava o conjunto para perto de 189 toneladas. [2][3][4]

Frankfurt-Hahn, 2009, após o carregamento do gerador para Yerevan. Merkur49 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

9. O dia em que 187,6 toneladas precisaram caber num piso

O transporte do gerador de Frankfurt-Hahn para Yerevan, em 2009, ilustra por que a verdadeira tecnologia do Mriya não estava apenas nos motores. Uma peça de quase 188 toneladas concentra forças enormes em uma área pequena. O piso da aeronave não poderia simplesmente receber essa massa sobre os pontos de apoio originais. A operação exigiu meses de preparação, cálculo de distribuição de carga e uma estrutura especial para espalhar esforços pelo piso. O Smithsonian registra que o planejamento levou cerca de seis meses para um voo de poucas horas. [4]

Em logística de projeto, a carga não “entra no avião”; o avião e a carga são transformados temporariamente num sistema único. Engenheiros recebem desenhos do equipamento, calculam centro de gravidade, pontos de apoio, forças durante aceleração, frenagem e turbulência, projetam berços e verificam se cada seção do piso permanece dentro de limites. A equipe de carga mede a posição final porque alguns centímetros podem alterar o balanceamento de uma aeronave de centenas de toneladas. [4]

A fotografia de Frankfurt-Hahn mostra o avião já carregado, quase banal à distância. É um contraste perfeito: o público vê uma aeronave enorme; a operação real acontece em diagramas, cargas por metro, macacos hidráulicos, correntes, trilhos, guinchos e autorizações de engenharia. O espetáculo existe porque a matemática funcionou. [4]

10. A economia que o Mriya tornou possível

Dizer que o An-225 “transformou o transporte aéreo” precisa de uma correção importante. Ele não tornou economicamente sensato transportar mercadoria comum de 250 toneladas por avião. Navios e ferrovias continuaram imbatíveis em custo por tonelada. O que o Mriya fez foi tornar economicamente viável uma categoria de decisão que antes parecia absurda: pagar uma fortuna pelo voo quando o custo de não ter a peça no destino é ainda maior. [4]

Em 2021, o Smithsonian citou um especialista independente estimando fretamento na faixa de US$ 55 mil a US$ 60 mil por hora de voo, aproximadamente 40% acima de um An-124, com operações distantes de Kyiv frequentemente ultrapassando US$ 1,5 milhão. Esses valores não eram uma tabela oficial fixa da Antonov e variavam por missão, combustível, posicionamento, escalas e engenharia. Mesmo assim, mostram a ordem de grandeza. O cliente não comprava “transporte barato”. Comprava tempo de projeto. [4]

O caso das pás eólicas de 42,1 metros, transportadas da China para a Dinamarca em 2010, resume a lógica. Segundo executivos ouvidos pelo Smithsonian, o cliente inicialmente considerou mais de US$ 1 milhão caro demais e examinou o transporte marítimo. Quando percebeu que o mar acrescentaria cerca de 30 dias, voltou ao avião. A carga chegou em horas. O custo do frete deixou de ser comparado com outro frete e passou a ser comparado com um mês de atraso numa cadeia industrial. [1][4]

Esse é o ponto central: o Mriya vendia compressão de calendário. Em energia, petróleo e gás, mineração, indústria pesada, ajuda humanitária e aeroespacial, um equipamento crítico pode desbloquear receitas, evitar multas contratuais, recuperar uma instalação parada ou antecipar meses de operação. Se uma usina de bilhões de dólares espera por um módulo, economizar três meses pode valer dezenas de vezes o preço do voo. O avião era caro porque seu serviço era raro; e podia ser racionalmente contratado porque o problema que resolvia era mais caro ainda.

Interlúdio técnico — Uma carga de 180 toneladas não é “bagagem”

Em carga aérea convencional, a lógica é simples: existe uma aeronave, existe uma porta, existem limites conhecidos e a mercadoria é preparada para caber neles. No universo do An-225, muitas missões começavam ao contrário. Primeiro existia um objeto industrial que ninguém havia projetado para voar — um gerador, um transformador, um módulo de usina, uma peça aeroespacial. Depois engenheiros precisavam descobrir se avião, carga, aeroporto e rota poderiam ser transformados num único sistema temporário. Era menos “reservar um cargueiro” e mais desenvolver uma pequena missão de engenharia. [4]

Peso total era apenas a primeira pergunta. Uma peça relativamente compacta podia ser mais difícil que uma carga mais pesada e longa, porque a pressão concentrada sobre poucos pontos ameaçava limites locais do piso. Era preciso conhecer pontos de içamento, zonas que podiam receber compressão, centro de gravidade, resistência do berço de transporte, altura final, acessórios removíveis e como o objeto reagiria a aceleração, frenagem, rotação, turbulência e pouso. Em operações como o gerador de 2009 e os módulos HRSG de 2018, estruturas intermediárias distribuíam forças pelo piso e convertiam uma carga industrial em uma carga aeronáutica. [4][14]

Depois vinha o centro de gravidade. O loadmaster e os engenheiros não estavam simplesmente escolhendo “onde deixar a caixa”. A posição longitudinal da massa precisava manter a aeronave dentro de uma faixa estreita de equilíbrio durante toda a missão, enquanto combustível era consumido e a configuração mudava. Correntes, cabos, travas, trilhos, macacos e chapas de distribuição precisavam resistir a forças previstas em várias direções. Algumas horas de voo podiam exigir semanas ou meses de cálculo e um dia inteiro de carregamento.

O aeroporto era outra parte da equação. Uma pista longa não bastava. Táxi, resistência do pavimento, largura de curvas, espaço de pátio, altura de obstáculos, fluxo de abastecimento, rebocadores, equipamentos de solo, acesso de guindastes e até a possibilidade de manter milhares de curiosos longe da operação precisavam entrar no planejamento. Em Iquique, por exemplo, o equipamento de reboque local não atendia ao Mriya e a Antonov levou seu próprio trator. [4][14]

Por isso uma cotação do An-225 não era a tarifa de um avião multiplicada por horas. O cliente comprava estudo de viabilidade, engenharia de carga, posicionamento da aeronave, rota, permissões, escalas, combustível, equipe técnica e operação em solo. O voo era apenas a parte mais fotogênica de uma cadeia que começava nos desenhos do fabricante da carga e terminava quando aquela massa extraordinária estava novamente sobre o chão, intacta, no destino.

Cabine do An-225 em 2013. Piotr Tadeusz / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

11. Chile–Bolívia, 2018: doze voos e três meses recuperados

Em 2018, o Mriya realizou talvez a demonstração mais clara de sua lógica econômica madura. A Hansa Meyer Global coordenou doze voos consecutivos entre Iquique, no Chile, e Chimoré, na Bolívia, levando módulos HRSG destinados à expansão da usina termoelétrica de Entre Ríos. Fontes do projeto descrevem módulos na faixa de 152 a 160 toneladas e cerca de 16 metros de comprimento. Foi a maior sequência de voos consecutivos da história comercial do An-225. [14][15]

Nem a carga estava pronta para o avião. Pontos de içamento precisaram ser retrabalhados para reduzir altura, e a distribuição de peso exigiu soluções específicas no piso. O aeroporto chileno não possuía um trator capaz de rebocar o Mriya; a Antonov levou o seu próprio equipamento. A tripulação recebeu preparação para a operação na região andina. Em Chimoré, horários de funcionamento e logística de descarga criavam outra camada de planejamento. [4][14]

Monika Beckfeld, da Hansa Meyer, estimou ao Smithsonian que o uso do An-225 economizou de três a quatro meses em comparação com uma rota terrestre de aproximadamente 700 milhas por terreno difícil, com pontes, rios e mudanças de clima. Aqui o avião deixou de ser uma curiosidade e tornou-se uma máquina de fluxo de caixa. Cada hora de voo cara comprava semanas de cronograma. [4]

Há ainda uma ironia importante. O Mriya não eliminava transporte marítimo e terrestre; ele se encaixava entre eles. Os módulos chegaram por navio, foram levados ao aeroporto, voaram sobre a barreira logística mais complicada e voltaram a caminhões especiais no destino. O valor estava em remover o gargalo que travava a cadeia inteira.

Interlúdio econômico — O An-124 era o parceiro que tornava o Mriya possível

Há um risco de transformar o An-225 numa história de herói solitário. Comercialmente, ele nunca existiu sozinho. A Antonov Airlines construiu sua competência e sua receita recorrente principalmente ao redor do An-124 Ruslan, uma frota muito mais utilizável e ainda extraordinária. O Mriya era o degrau máximo de uma escada logística: quando a carga ultrapassava o que um An-124 podia aceitar, a empresa já possuía clientes, engenheiros, agentes, procedimentos e reputação para propor a solução seguinte. [1][4]

A própria cronologia oficial da Antonov conecta as duas histórias. Em fevereiro de 1989, pouco depois do primeiro voo do An-225, uma decisão política colocou An-124 à disposição da organização para operações comerciais internacionais. Na década seguinte, essa experiência ajudou a transformar a antiga engenharia de transporte soviética num negócio global de cargas especiais. O Ruslan criou frequência; o Mriya criou teto de capacidade. [1]

Isso ajuda a responder por que não foram construídos vários An-225. Capacidade extrema só produz valor quando encontra uma carga extrema. O An-124, com quatro motores, menores dimensões e várias células disponíveis, podia atender muito mais rotas e missões. Dmytro Antonov observou após a destruição que o Mriya havia acumulado aproximadamente cinco vezes menos horas de voo que o An-124 em período comparável. Não era fracasso: era a consequência de ser uma ferramenta reservada aos casos em que todas as ferramentas anteriores já haviam ficado pequenas. [11][12]

O ecossistema também reduz a fantasia de que “um avião sozinho mudou uma economia”. O que o Mriya tornou possível foi o topo de uma economia de logística de projeto sustentada por dezenas de profissões, aeronaves menores, oficinas, engenharia, despachantes, aeroportos e clientes industriais. Seu valor vinha da singularidade; sua viabilidade vinha de pertencer a uma organização que não dependia exclusivamente dele. Essa distinção será decisiva se um segundo Mriya algum dia for concluído.

Compartimento de carga em Zagreb, 2013. Dtom / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

12. A tripulação: o verdadeiro sistema operacional do Mriya

Máquinas únicas criam profissões únicas. Em 2021, apenas cerca de dez pilotos eram citados como certificados para o Mriya. Mas reduzir sua equipe aos pilotos seria tão errado quanto reduzir uma usina ao operador da sala de controle. A cabine comercial típica precisava de dois pilotos, dois engenheiros de voo, navegador e operador de rádio. Em missões internacionais, equipes de substituição, mecânicos, loadmasters e técnicos elevavam o grupo itinerante para cerca de 22 pessoas. [4]

O avião levava consigo parte da própria infraestrutura. Havia área de descanso, cozinha e beliches no convés superior. Em aeroportos preparados para jatos comuns, o An-225 podia exigir trator próprio, equipamentos especiais e coordenação de pista, pátio, combustível, segurança e público. A equipe não apenas “voava” o aparelho; ela fazia o aeroporto aceitar por algumas horas uma máquina fora da escala normal. [4]

A relação humana também explica por que o Mriya se tornou mais que patrimônio. Oleksandr Galunenko foi o primeiro comandante, participou do desenvolvimento e voltou à cabine na ressurreição de 2001. Mykhaylo Kharchenko, integrante do primeiro voo como engenheiro de ensaio, mais tarde ocupou função de direção na operação de transporte da Antonov. Dmytro Antonov tornou-se um dos rostos públicos da aeronave nas últimas décadas. Esses nomes formam uma continuidade rara: pessoas que acompanharam um protótipo espacial soviético até sua maturidade como cargueiro ucraniano global. [1][11][13]

Depois da destruição, Galunenko comparou a perda a perder um filho. A frase é emocional, mas também tecnicamente compreensível. Um piloto de teste passa anos aprendendo respostas, vibrações, procedimentos e limites de uma célula que não tem segunda unidade operacional para comparar. Parte do conhecimento do avião estava escrita em manuais; parte estava nos corpos e memórias de quem o fazia funcionar.

13. O avião-celebridade que chegava antes da internet

O Mriya tinha uma característica comercial impossível de colocar na ficha técnica: ele atraía multidões. Galunenko lembrava filas em Oklahoma em 1990 e a necessidade de mostrar num mapa onde ficava Kyiv porque parte do público norte-americano supunha que uma aeronave daquele tamanho só poderia ser Boeing. Em 2016, Dmytro Antonov estimou cerca de 15 mil pessoas reunidas para vê-lo na Austrália. Em abril de 2020, a própria Antonov informou que aproximadamente 80 mil pessoas acompanharam online sua aproximação a Varsóvia. [4][5][13]

Esse fascínio não era apenas vaidade. Em um mercado de fretamento extremamente especializado, publicidade reduz o custo de explicar uma capacidade. Diretores de projeto, governos e forwarders sabiam que, se surgisse uma peça “grande demais”, havia um nome a consultar. O avião era seu próprio catálogo. Cada pouso virava notícia, cada recorde virava prova de capacidade e cada multidão reforçava a marca Antonov. [4]

Ao mesmo tempo, a celebridade podia atrapalhar. Relatos de tripulantes mencionam funcionários de aeroportos e visitantes atrasando operações para ver o avião. O Mriya era uma ferramenta industrial que, involuntariamente, carregava uma aura de evento público. Isso ajuda a entender por que sua destruição foi sentida muito além da comunidade aeronáutica.

14. Humanitário quando o que faltava era volume

O mesmo volume criado para grandes máquinas mostrou outra utilidade quando a carga era composta de milhares de caixas pequenas. Durante a pandemia de COVID-19, o An-225 foi empregado em uma série de missões de suprimentos médicos a partir da China. Em 14 de abril de 2020, chegou a Varsóvia com cerca de 100 toneladas de medicamentos, reagentes, máscaras e equipamentos de proteção ocupando aproximadamente 1.000 metros cúbicos. A Antonov descreveu a missão como recorde de volume transportado no compartimento de carga de uma aeronave. [5]

Em 6 de maio, outra missão levou 111.431 kg de material médico à Ucrânia, com volume aproximado de 957 m³. A Antonov informou que o Mriya havia realizado voos relacionados à pandemia para Polônia, França, Alemanha, Canadá e Ucrânia. [6]

É quase o inverso do gerador de 2009. Ali, o desafio era concentrar uma massa enorme sem quebrar o piso. Na pandemia, o desafio era preencher uma caverna com caixas leves o bastante para que o volume se esgotasse antes da capacidade estrutural. A aeronave provava que “capacidade” tem duas dimensões econômicas diferentes: peso e espaço.

Interlúdio de carreira — Uma biografia feita de missões improváveis

Depois de 2001, a carreira do Mriya passou a ser contada por cargas que pareciam ter sido inventadas para testar o limite de uma legenda. Em dezembro de 2002, transportou cerca de 187 toneladas de rações militares da Alemanha para Omã. Em outra operação, levou dezenas de milhares de caixas de presentes de Nova York para Entebbe. Em setembro de 2003, a aeronave participou de uma sequência intensa de 41 voos em 29 dias, movimentando mais de 800 toneladas de equipamentos e ajuda. O avião concebido para um programa espacial começava a viver de urgências completamente diferentes. [4]

A energia tornou-se um de seus territórios naturais. O gerador de 187,6 toneladas em 2009 demonstrou massa concentrada; as pás eólicas de 42,1 metros em 2010 demonstraram comprimento; o conjunto de aproximadamente 182 toneladas levado de São Paulo a Santiago em 2016 mostrou a combinação de massa, dimensão e prazo. Em 2018, doze módulos para a Bolívia transformaram uma exceção numa sequência industrial. Cada missão acrescentava uma nova resposta à mesma pergunta: quanto vale evitar que uma peça crítica passe semanas no mar ou meses numa estrada impossível? [1][2][4][14][15]

O vínculo aeroespacial nunca desapareceu por completo. Tripulantes lembraram missões envolvendo satélites e equipamentos de programas espaciais, uma espécie de eco comercial do objetivo que dera origem ao avião. E a utilidade humanitária cresceu: o Mriya participou de operações após desastres e, em 2020, virou uma das imagens mais poderosas da ponte aérea de equipamentos médicos durante a pandemia. [4][5][6]

Havia também episódios que revelavam sua dimensão cultural. Em setembro de 2012, a aeronave levou uma exposição com 500 pinturas de 120 artistas a 10.150 metros de altitude, numa ação registrada pelo Guinness. Era um uso quase absurdo de uma máquina de carga — e justamente por isso perfeitamente Mriya. O mesmo volume que um dia fora calculado para um ônibus espacial podia carregar arte, respiradores, turbinas ou qualquer outra coisa que a época decidisse chamar de urgente. [1]

A biografia operacional do An-225 é, portanto, uma coleção de exceções. Ele não tinha uma rota regular que resumisse sua vida. Seu “horário” era ditado pelos problemas extraordinários do mundo. Quando aparecia no radar, quase sempre significava que em algum lugar existia uma carga para a qual a logística comum havia ficado pequena.

15. Os últimos voos — e o retorno a Hostomel

Em janeiro e início de fevereiro de 2022, o Mriya continuava trabalhando. O histórico publicado pelo Flightradar24 mostra uma sequência de voos envolvendo Kyiv/Hostomel, Tianjin, Bishkek, Leipzig, Montreal, Rzeszów, Atenas, Linz e outros pontos. Sua última missão comercial transportou equipamentos de proteção para a Dinamarca em 4 de fevereiro. No dia 5, o UR-82060 voou de Billund de volta a Kyiv/Hostomel. Foi sua última aterrissagem. [7]

Quando a invasão russa em grande escala começou em 24 de fevereiro, o avião estava em Hostomel para manutenção. Autoridades ucranianas afirmaram posteriormente que um motor estava desmontado e que a aeronave não podia simplesmente decolar naquele dia. O aeroporto era estrategicamente importante: próximo de Kyiv e dotado de pista capaz de receber grandes aeronaves, poderia servir como ponte aérea para forças invasoras. Hostomel tornou-se alvo desde as primeiras horas da guerra. [8][13]

Nos primeiros dias, a informação sobre o estado do Mriya foi confusa. Em 27 de fevereiro, autoridades ucranianas anunciaram sua destruição; a Antonov, prudentemente, respondeu que só poderia avaliar a condição técnica após inspeção de especialistas. Imagens posteriores confirmaram que a estrutura dianteira e grande parte da aeronave haviam sofrido dano catastrófico. [8]

A formulação histórica mais segura é esta: o An-225 UR-82060 foi destruído em Hostomel durante os combates desencadeados pela invasão russa da Ucrânia e pelo assalto ao aeroporto. Autoridades ucranianas atribuem sua destruição ao ataque russo. O que não existe publicamente, até o corte deste artigo, é um laudo forense independente amplamente divulgado que identifique com precisão uma única munição, o segundo exato do impacto e toda a cadeia física de dano. Essa diferença não muda o contexto da perda; apenas impede transformar uma reconstrução incompleta dos minutos da batalha em certeza documental.

16. Poderia ter sido salvo? A pergunta mais desconfortável

A destruição gerou outra investigação: por que o avião estava ali? Dmytro Antonov criticou publicamente decisões anteriores à invasão e sustentou que havia possibilidade de deslocar a aeronave. Outros relatos enfatizaram que ela estava em manutenção. Em 2023, o Serviço de Segurança da Ucrânia anunciou suspeitas contra três ex-dirigentes da Antonov, afirmando que, em janeiro e fevereiro de 2022, eles teriam impedido a Guarda Nacional de acessar o aeroporto para preparar fortificações. Segundo a SSU, essas ações contribuíram para a captura temporária do campo e para a destruição do Mriya. [10][11]

É essencial usar a linguagem correta: trata-se de alegações de uma investigação criminal e de notificações de suspeita, não de uma sentença final que permita ao historiador apresentar culpa individual como fato consolidado. Da mesma forma, a discussão sobre evacuação envolve estado de manutenção, disponibilidade de motores, risco operacional, alertas disponíveis e decisões de gestão que não podem ser reduzidas a uma frase de rede social. [10]

O que se pode afirmar com segurança é que o avião estava numa base que se tornou um objetivo militar central, que não foi evacuado antes do ataque e que a batalha destruiu uma célula sem substituta operacional. Em gestão de risco, a singularidade que tornava o Mriya valioso também tornava qualquer erro de proteção irreversível.

17. O “fim” é uma pergunta porque existe outro casco

A frase “o An-225 foi destruído” descreve corretamente o UR-82060. Ela não encerra a história do modelo. A própria Antonov registra que duas células foram iniciadas, mas somente uma foi concluída. Uma segunda estrutura permaneceu incompleta por décadas. Ao longo do tempo, estimativas públicas a colocaram em torno de 60% a 70% — às vezes mais, dependendo do que se conta como “concluído”. Essa porcentagem é enganosa se interpretada como “faltam apenas 30% do trabalho”. Uma fuselagem e seções estruturais representam grande massa física, mas motores, sistemas, aviônicos, hidráulica, interiores, integração, testes e certificação concentram enorme custo e complexidade. [1][11][12]

Depois de Hostomel, a ideia de “reconstruir o Mriya” passou a significar, na prática, algo mais próximo de completar uma nova aeronave a partir da segunda célula, aproveitando componentes recuperáveis do UR-82060 onde tecnicamente justificável e substituindo sistemas obsoletos. Dmytro Antonov afirmou em 2022 que a empresa avaliava quais partes do avião destruído poderiam ser transferidas e que seria necessário criar um plano por etapas, selecionar fornecedores, calcular custos e formar um fundo de investimento. Ele advertiu que o processo levaria anos. [11]

As estimativas de custo variaram violentamente. Nos primeiros dias após a destruição, a estatal ucraniana citou valor acima de US$ 3 bilhões e mais de cinco anos. Discussões posteriores falaram em centenas de milhões — aproximadamente US$ 500 milhões em algumas estimativas. Dmytro Antonov observou que números oficiais e não oficiais variavam por quase quatro vezes. Isso não é contradição apenas; é sinal de que “reconstruir” pode significar escopos diferentes: recuperar uma célula, completar a segunda, modernizar sistemas, reconstruir infraestrutura em Hostomel, recriar fornecedores e certificar um avião que incorpora tecnologia nova. [8][11]

18. Situação em 20 de agosto de 2026: intenção real, cronograma não

Até o corte factual deste artigo, a reconstrução permanece uma intenção séria e publicamente reiterada, não uma aeronave em produção com cronograma industrial verificável e data de primeiro voo. A página histórica oficial da Antonov atualizada em 2026 continua tratando o An-225 como programa histórico e confirma a existência de duas células iniciadas, uma concluída. Entrevistas e iniciativas de arrecadação mostram que existe planejamento, levantamento de peças e vontade política e simbólica. O que não está publicamente demonstrado é um pacote de financiamento integral, cadeia de fornecedores fechada, configuração certificável congelada e calendário contratual de montagem. [1][11]

Isso importa porque a pergunta “vai ser reconstruído?” costuma receber respostas emocionais. A resposta tecnicamente responsável é: pode ser reconstruído, há uma segunda estrutura real e conhecimento de projeto real, mas completar um Mriya 2 exige muito mais que reparar chapas. Alguns componentes soviéticos não são mais produzidos, parte da cadeia industrial mudou de país ou desapareceu, a Ucrânia está em guerra, e uma aeronave modernizada precisaria incorporar equipamentos atuais sem criar um programa de ensaios tão caro que destrua o caso econômico. [11][12]

Há ainda a infraestrutura. Dmytro Antonov colocou a reconstrução de Hostomel como prioridade imediata da companhia. Um An-225 sem base, hangares, oficinas, engenharia, equipamentos de carga e frota complementar não é um negócio; é uma peça isolada. Reconstruir o Mriya significa, em alguma medida, reconstruir o ecossistema que o fazia trabalhar. [11]

Interlúdio de engenharia — Construir outro não é copiar o primeiro

As porcentagens associadas à segunda célula — 60%, 70% e, em algumas declarações, até 80% — parecem sugerir que o trabalho principal já estaria feito. Em engenharia aeronáutica, massa física e avanço industrial não são a mesma coisa. Estruturas grandes ficam prontas cedo e são visualmente impressionantes; sistemas menores, integração, software, chicotes, hidráulica, aviônicos, sensores, ensaios e documentação podem concentrar uma parcela desproporcional do custo, do risco e do calendário. [11][12]

Há ainda um intervalo de quase quatro décadas entre o desenho original e uma eventual aeronave nova. Parte da cadeia de fornecedores soviética desapareceu, mudou de país ou deixou de produzir componentes. Equipamentos de navegação, comunicação e segurança usados em 1988 não seriam uma escolha racional para uma máquina que se pretendesse operar por décadas no espaço aéreo internacional. Substituí-los parece simples até que cada interface elétrica, estrutural, térmica e de software precise ser verificada. Modernizar demais pode transformar “completar a segunda célula” num programa de desenvolvimento; modernizar de menos pode produzir um avião difícil de manter e certificar.

Os seis motores D-18T acrescentam outra camada. A família também equipa o An-124 ucraniano, de modo que qualquer programa para o Mriya se conecta à questão maior da manutenção e modernização da frota Ruslan. Dmytro Antonov chegou a argumentar que tecnologias desenvolvidas para um novo An-225 poderiam beneficiar esses cargueiros. Isso dá ao projeto uma justificativa industrial mais ampla, mas também significa que a decisão não pode ser isolada de motores, peças e capacidades de manutenção de toda uma frota. [12]

Reaproveitar componentes do UR-82060 também exige mais que retirar uma peça do destroço e instalá-la no novo casco. Cada item precisa ter identidade, histórico e condição verificáveis. Exposição a fogo, impacto, calor, deformação, corrosão e perda de documentação podem eliminar componentes visualmente inteiros. Em aeronaves, memória sentimental não substitui rastreabilidade. O que puder ser salvo precisará ser salvo como peça aeronavegável, não como relíquia. [11]

É por isso que estimativas de centenas de milhões ou de bilhões de dólares só podem ser comparadas depois de perguntar o que cada uma inclui: apenas a aeronave? motores? aviônicos novos? certificação? ferramental? estoque de peças? reconstrução de Hostomel? treinamento? infraestrutura de manutenção? A diferença entre “terminar um casco” e “recriar uma capacidade operacional por décadas” é exatamente o espaço onde bilhões podem aparecer.

19. Um segundo Mriya seria economicamente racional?

A pergunta precisa ser dividida em duas. Como investimento puramente comercial, um segundo An-225 sempre enfrentou um mercado estreito. O próprio Dmytro Antonov observou que o Mriya acumulava muito menos horas que os An-124 porque as cargas que exclusivamente exigiam sua capacidade eram raras. O Smithsonian estimava, antes da guerra, algo como 10 a 12 grandes operações anuais em média. Isso é pouco para amortizar uma aeronave nova de centenas de milhões de dólares, mais infraestrutura e certificação. [4][11]

Mas o cálculo muda quando a aeronave funciona também como plataforma tecnológica, ativo estratégico e símbolo nacional. Desenvolvimento de aviônicos, sistemas e componentes para um Mriya 2 poderia alimentar a modernização de An-124s ucranianos. Um programa internacional poderia preservar competências de engenharia pesada. E em situações de desastre, energia e defesa logística, existe valor estratégico que não aparece numa taxa de retorno de uma companhia aérea comum. [12]

A melhor defesa econômica do An-225 nunca foi “ele voa barato”. Foi “ele faz o que não tem substituto”. Essa condição permite margens extraordinárias em missões específicas, mas não garante volume. Se a Ucrânia e parceiros decidirem reconstruí-lo, o projeto provavelmente precisará ser justificado como combinação de negócio, política industrial, capacidade estratégica e patrimônio tecnológico — exatamente como muitos grandes programas aeroespaciais foram justificados ao longo da história.

20. O legado: o avião que tornou o impossível uma modalidade de frete

O maior legado do Mriya não é ter sido grande. Outros aviões gigantes existiram; alguns foram mais eficientes dentro de suas missões. O An-225 tornou visível uma ideia: quando a carga é indivisível e o atraso é caro, transporte aéreo deixa de competir com navio em preço por tonelada e passa a competir com o custo do calendário. Essa mudança de comparação abriu espaço para geradores, transformadores, módulos de usina, pás eólicas, equipamentos de emergência e cargas aeroespaciais que pareciam “não voáveis”. [4]

Ele também mostrou que uma máquina criada por uma economia planejada e por um objetivo estatal muito específico podia sobreviver transformando-se numa ferramenta de mercado. O mesmo avião que carregou o Buran em 1989 levou geradores para usinas, ajuda para crises humanitárias e suprimentos durante uma pandemia global. O Mriya não abandonou sua natureza original; apenas trocou o significado de “missão crítica”.

Por isso o destroço de Hostomel não parece apenas um avião destruído. Ele representa a perda de uma capacidade operacional única e de um objeto que acumulou quatro histórias sobre a mesma estrutura: a corrida espacial soviética, a independência tecnológica ucraniana, a globalização da logística de projetos e, finalmente, a guerra que atingiu o lugar onde ele nasceu e trabalhava.

Se outro An-225 voar, não será a ressurreição literal do UR-82060. Será uma segunda aeronave feita com estrutura antiga, peças eventualmente recuperadas, sistemas novos, uma cadeia industrial reconstruída e décadas de memória operacional. Talvez por isso o nome “Mriya” continue adequado. Em ucraniano, significa “sonho”. E sonhos, ao contrário de fuselagens, não precisam permanecer inteiros para continuar exercendo força sobre o futuro.

Apêndice A — Recordes e cargas memoráveis

DataCarga / dimensãoO que aconteceu
22 mar 1989156,3 tVoo de 3h45; Antonov registra 110 recordes mundiais.
11 set 2001253,820 tRecorde absoluto FAI de maior carga; campanha gerou dezenas/centenas de marcas por categorias.
16 jun 2004247 tQuatro máquinas para assentamento de tubos, Praga–Tashkent; recordes comerciais.
11 ago 2009187,6 t peça / ~189 t conjuntoGerador Frankfurt-Hahn–Yerevan; peça individual mais pesada transportada por ar.
10 jun 201042,1 m cadaDuas pás de turbina eólica China–Dinamarca; recorde de comprimento da carga.
2016155 t + estrutura de 27 tTurbina/gerador São Paulo–Santiago, conjunto de 182 t.
jun–jul 201812 × ~152–160 tDoze voos consecutivos Iquique–Chimoré para módulos HRSG.
abr 2020~100 t / ~1.000 m³Suprimentos médicos Tianjin–Varsóvia; recorde de volume divulgado pela Antonov.

Apêndice B — Linha do tempo

DataMarco
16 out 1986Especificação para a aeronave do sistema aeroespacial é aprovada.
20 mai 1987Decreto inicia desenvolvimento/construção do projeto 400M/402, futuro An-225.
30 nov 1988Rollout em Kyiv.
21 dez 1988Primeiro voo.
22 mar 1989Voo com 156,3 t e 110 recordes segundo Antonov.
13 mai 1989Primeiro voo com Buran; total de 13 voos de ensaio nessa configuração.
jun 1989Apresentação com Buran em Le Bourget.
mai 1990Primeiro voo comercial: trator T-800 >110 t.
1994Entra em armazenamento após 339 voos/671 h, segundo Smithsonian.
7 mai 2001Primeiro voo após restauração e modernização.
26 mai 2001Certificado de tipo entregue.
11 set 2001Recorde FAI de 253.820 kg.
16 jun 2004247 t de carga comercial Praga–Tashkent.
ago 2009Gerador de 187,6 t para Yerevan.
jun 2010Pás eólicas de 42,1 m.
201812 voos Chile–Bolívia para módulos HRSG.
abr–mai 2020Missões de alto volume durante a pandemia.
5 fev 2022Último voo: Billund–Hostomel.
24–27 fev 2022Batalha de Hostomel; destruição anunciada em 27/02.
3 abr 2022Fotografias após a retomada confirmam destruição catastrófica.
2022–2026Planejamento e debate sobre uso da segunda célula e peças recuperadas; sem cronograma público firme de voo até o corte deste artigo.

Fontes e documentação

[1] ANTONOV Company — “AN-225 Mriya”, página histórica oficial e cronologia técnica. Fonte.

[2] ANTONOV Airlines — “No Other Name Carries More Weight”, brochura técnica/comercial oficial. Fonte.

[3] Fédération Aéronautique Internationale (FAI) — banco de recordes do An-225/Olexander Halunenko, incluindo 253.820 kg em 11/09/2001. Fonte.

[4] Smithsonian Air & Space Magazine — Jacopo Prisco, “The Biggest Airplane Flying Today”, abril de 2021. Fonte.

[5] ANTONOV Company — voo Tianjin–Varsóvia com cerca de 100 t e quase 1.000 m³ de suprimentos médicos, 14/04/2020. Fonte.

[6] ANTONOV Company — 111.431 kg / 957 m³ de equipamento médico entregues à Ucrânia em 06/05/2020. Fonte.

[7] Flightradar24 — “A tribute to the Antonov AN-225”, com a sequência dos últimos voos de janeiro/fevereiro de 2022. Fonte.

[8] Smithsonian Magazine — “Ukrainian Officials Say the World’s Largest Aircraft… Has Been Destroyed”, 03/03/2022. Fonte.

[9] National Air and Space Museum — “The Strength and Resolve of Ukraine”, 15/03/2022. Fonte.

[10] Security Service of Ukraine (SSU) — suspeitas contra ex-dirigentes da Antonov ligadas à defesa de Hostomel; investigação em andamento, 10/03/2023. Fonte.

[11] AeroTime — entrevista com Dmytro Antonov sobre Hostomel e o plano para o segundo An-225. Fonte.

[12] AeroTime — entrevista com Dmytro Antonov sobre operação, modernização e lógica econômica de um Mriya 2. Fonte.

[13] The War Zone — entrevista com Oleksandr Halunenko, primeiro comandante do An-225, incluindo a restauração de 2001. Fonte.

[14] Hansa Meyer Global — operação de 12 voos consecutivos Chile–Bolívia para módulos HRSG, 2018. Fonte.

[15] ENDE Corporación — recepção dos módulos para a termoelétrica Entre Ríos em Chimoré, Bolívia, 27/06/2018. Fonte.

[16] Air Force Magazine, março de 1991 — perfil técnico contemporâneo do An-225 e sua missão espacial. Fonte.

[17] National Air and Space Museum Technical Reference Files — registro de arquivo para “Antonov An-225 Mriya (Dream) Cossack”. Fonte.

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