Durante décadas, Augusto Cury construiu uma fortuna e uma audiência ensinando milhões de leitores a administrar pensamentos, emoções e ansiedade. Em 2026, aos 67 anos e sem jamais ter disputado uma eleição, ele tenta o salto máximo: transformar uma filosofia de desenvolvimento humano em projeto de Estado.
Por Arão Filho
Pesquisa, arquitetura narrativa e preparação editorial para o Chumbiverse
TESE CENTRAL
Augusto Cury chega à eleição de 2026 com uma vantagem rara: já possui uma obra, uma audiência e uma identidade pública anteriores à política. Mas sua principal promessa também contém seu maior risco. O candidato afirma que o Brasil precisa de gestão emocional, pacificação e pensamento crítico; a Presidência exigirá demonstrar que conceitos que funcionam como linguagem de livros, palestras e programas educacionais podem ser traduzidos em políticas públicas testáveis, orçamento, desenho institucional e decisões que precisam sobreviver ao contraditório.
Nota de precisão: Este perfil não recomenda voto. A Teoria da Inteligência Multifocal é apresentada como uma formulação autoral de Augusto Cury e não como consenso da psiquiatria ou da psicologia. Uma reportagem da Folha consultou cinco psiquiatras em 2026 e todos disseram não considerar a teoria cientificamente validada para uso clínico; Cury contestou a crítica e afirmou que aspectos de sua proposta possuem validação e aplicação prática. O artigo também diferencia patrimônio pessoal, valor de empresas e recursos de campanha, que não são a mesma coisa. Corte factual: 20 de agosto de 2026.
PRÓLOGO — O HOMEM QUE QUER TRATAR UM PAÍS
Durante quase toda a carreira de Augusto Cury, a unidade básica de análise foi uma pessoa.
Uma criança ansiosa. Um adolescente sob pressão. Um professor exausto. Um executivo cercado por problemas. Um adulto incapaz de desacelerar os pensamentos. Um leitor tentando descobrir por que a própria mente parece trabalhar contra ele.
A resposta de Cury, em dezenas de livros, costuma começar dentro da cabeça.
Aprender a observar pensamentos. Administrar emoções. Desenvolver um “eu” capaz de intervir na própria história. Criar empatia. Pensar antes de reagir. Não transformar frustração em prisão mental.
Em 2026, a unidade de análise mudou.
Agora são mais de duzentos milhões de pessoas, uma dívida pública gigantesca, vinte e sete unidades federativas, milhares de municípios, Congresso, Supremo Tribunal Federal, Forças Armadas, sistema tributário, crime organizado, hospitais, escolas, empresas e um orçamento que não melhora quando alguém respira fundo.
Augusto Cury decidiu disputar a Presidência da República.
A primeira eleição de sua vida será justamente a maior eleição possível no Brasil.
Não existe mandato de vereador, prefeitura, Assembleia, Câmara, Senado, secretaria ou ministério na biografia eleitoral anterior. Há, em compensação, uma carreira editorial gigantesca, negócios de educação, milhões de leitores, uma metodologia própria e patrimônio que o colocou no topo da lista dos presidenciáveis mais ricos de 2026.
É um experimento político curioso.
Durante décadas, Cury tentou convencer indivíduos de que é preciso aprender a governar a própria mente.
Agora pede autorização para governar um país.
1. COLINA ANTES DOS BEST-SELLERS
Augusto Jorge Cury nasceu em 2 de outubro de 1958, em Colina, no interior de São Paulo.
Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, a Famerp. Décadas depois, a própria instituição o receberia de volta para palestras sobre saúde mental, emoção e qualidade de vida.
A medicina é importante para compreender sua construção pública porque Cury nunca se apresentou apenas como escritor de autoajuda. Sua autoridade editorial foi edificada também sobre a identidade de médico psiquiatra e psicoterapeuta.
Isso altera a recepção de uma frase.
Quando um romancista escreve sobre ansiedade, o leitor recebe literatura. Quando um médico escreve sobre ansiedade, parte do público recebe também uma promessa de conhecimento especializado.
Cury percebeu cedo a potência desse território intermediário entre clínica, filosofia, comportamento e linguagem acessível.
Em vez de publicar apenas para colegas, começou a construir uma obra voltada diretamente ao grande público.
O consultório encontraria a livraria.
2. A TEORIA QUE VIROU MARCA
No fim da década de 1990, Cury sistematizou aquilo que chamou de Teoria da Inteligência Multifocal.
O livro “Inteligência Multifocal” apresentou uma arquitetura própria para explicar formação de pensamentos, memória, emoções, interpretação e funcionamento do que o autor chama de “eu”.
A proposta é ambiciosa.
Não se limita a recomendar hábitos de bem-estar. Tenta oferecer um modelo de funcionamento da mente e uma linguagem para explicar por que pessoas repetem comportamentos, sofrem antecipadamente, criam pensamentos automáticos e podem aprender a interferir nesse processo.
A partir dali surgiram conceitos que seriam repetidos em livros, cursos e palestras: gestão da emoção, janelas da memória, fenômenos de construção do pensamento e, mais tarde, a popular “Síndrome do Pensamento Acelerado”.
O modelo tinha uma vantagem editorial extraordinária.
Problemas psicológicos complexos podiam ser apresentados numa linguagem que o leitor comum reconhecia imediatamente em si mesmo.
Quem nunca deitou cansado e percebeu que a cabeça continuava trabalhando?
Quem nunca reagiu antes de pensar?
Quem nunca transformou uma possibilidade ruim em sofrimento antecipado?
Cury deu nomes próprios a experiências universais.
E nomes são uma ferramenta poderosa.
Quando alguém consegue nomear aquilo que sente, já começa a acreditar que pode controlá-lo.
A teoria tornou-se, portanto, mais do que teoria.
Virou marca intelectual.
3. O AUTOR QUE APRENDEU A ESCALAR UMA CONSULTA
O sucesso editorial cresceu de forma extraordinária.
As estimativas variam conforme a fonte e o período. Editoras e o próprio site do autor falam em dezenas de milhões de exemplares vendidos, publicação em cerca de setenta países e mais de setenta títulos lançados ao longo da carreira.
Entre os livros mais conhecidos estão “Pais Brilhantes, Professores Fascinantes”, “Nunca Desista de Seus Sonhos”, “O Vendedor de Sonhos”, “Ansiedade” e a própria “Inteligência Multifocal”.
“O Vendedor de Sonhos” atravessou a literatura e foi adaptado para cinema e teatro.
Cury deixou de ser apenas um médico que escrevia.
Virou uma propriedade intelectual reconhecível.
Isso é economicamente diferente.
Um médico vende horas.
Um livro vende a mesma hora intelectual milhões de vezes.
Uma palestra vende essa autoridade para milhares de pessoas simultaneamente.
Um método educacional transforma ideias em produto recorrente para escolas.
A escalabilidade que startups perseguem com software apareceu na carreira de Cury através de conteúdo.
O pensamento virou catálogo.
E o catálogo virou empresa.

4. A ESCOLA DA INTELIGÊNCIA — QUANDO O LIVRO ENTROU NA SALA DE AULA
A Escola da Inteligência foi a extensão empresarial mais importante desse processo.
Baseado nos conceitos de educação socioemocional associados à obra de Cury, o programa passou a ser adotado por escolas e redes de ensino, trabalhando habilidades como empatia, autocontrole, relação interpessoal, reflexão e gestão das emoções.
Em 2020, o negócio atingiu uma escala que mostrou seu valor econômico de maneira objetiva.
A Arco Educação anunciou a compra da Escola da Inteligência. Documentos da própria Arco registram que a aquisição envolvia o negócio privado da empresa e que os primeiros 60% foram avaliados em R$ 288 milhões, com mecanismo para compra da participação restante. Em comunicação posterior ao mercado, a companhia tratou a aquisição total por valor próximo de R$ 496 milhões, sujeito aos ajustes previstos no contrato.
Na época, a Escola da Inteligência atendia centenas de milhares de alunos e centenas de escolas.
Esse capítulo é essencial para entender o candidato de 2026.
Augusto Cury não enriqueceu apenas vendendo livros em livrarias.
Ele conseguiu transformar uma visão sobre desenvolvimento emocional em ativo educacional de alto valor empresarial.
É uma realização concreta.
Mas produz uma questão inevitável quando o autor decide governar.
Se conceitos desenvolvidos por ele próprio forem usados como referência para políticas públicas nacionais, como garantir avaliação independente, concorrência, evidência e separação clara entre filosofia do candidato e qualquer interesse comercial associado ao ecossistema que nasceu dessa filosofia?
A pergunta não pressupõe irregularidade.
Pressupõe governança.
Quanto maior a proximidade entre uma ideia e o patrimônio intelectual de quem governa, maior precisa ser a transparência para transformá-la em política de Estado.
5. QUANDO A CIÊNCIA PEDE PROVA
A carreira de Cury possui uma controvérsia que se tornou especialmente importante depois da entrada na política.
Qual é o status científico da Teoria da Inteligência Multifocal?
Em abril de 2026, a Folha de S.Paulo consultou cinco psiquiatras sobre a teoria. Todos disseram não considerá-la cientificamente validada para uso clínico.
Entre os críticos estavam profissionais ligados à Uerj e à USP. O argumento central não era que todas as ideias de Cury fossem necessariamente inúteis, mas que a teoria, como sistema autoral, não possui o mesmo corpo de validação, reprodução independente e evidência clínica associado a abordagens consolidadas.
A crítica ganhou peso porque edições de “Inteligência Multifocal” contêm passagens em que Cury descreve resultados positivos inclusive em pacientes autistas. Como autismo não possui “cura” reconhecida pela medicina, a redação provocou questionamentos.
Cury respondeu que se referia a resolução ou tratamento de problemas apresentados pelos pacientes, e não à cura do autismo. Também argumentou que críticos não estudaram suficientemente sua obra, disse haver aplicações e validações de aspectos da teoria e comparou a resistência recebida por sua formulação às controvérsias históricas em torno de outras escolas psicológicas.
Existe ainda pesquisa acadêmica que analisa criticamente a Escola da Inteligência como produto educacional. Um artigo publicado em 2024 na revista Criar Educação, por exemplo, examinou a proposta à luz da Teoria Crítica e discutiu questões como padronização, comercialização e efeitos formativos.
Nada disso apaga o impacto cultural de Cury.
Mas impacto cultural e validação científica são categorias diferentes.
Um livro pode ajudar milhões de leitores sem que cada conceito usado nele se transforme automaticamente em teoria clínica comprovada.
E essa distinção será ainda mais importante se o vocabulário do escritor entrar no desenho de políticas públicas nacionais.

6. O PROBLEMA DA AUTOAJUDA É QUE ELA FUNCIONA MELHOR QUANDO O LEITOR QUER
Livros de desenvolvimento pessoal possuem uma característica conveniente.
O leitor abriu o livro porque quis.
Ele aceita entrar na linguagem do autor.
Pode abandonar a leitura se não gostar.
Pode adaptar uma técnica, ignorar outra, sublinhar uma frase e esquecer o resto.
O Estado não funciona assim.
Uma política educacional não é uma sugestão numa página.
Envolve currículo, professor, município, orçamento, licitação, avaliação, diversidade cultural, alunos neurodivergentes, famílias, evidência e direito de contestação.
Uma política de saúde mental não pode depender apenas de inspiração.
Precisa de protocolo, formação profissional, diagnóstico correto, rede de atendimento e indicadores.
Esse é o salto que torna a candidatura de Cury intelectualmente interessante.
Sua vida profissional foi construída simplificando problemas sem necessariamente tratá-los como simples.
A Presidência exige o caminho inverso.
Transformar uma ideia simples em uma máquina institucional complexa que continue funcionando quando o autor não estiver no palco.
7. DE ESCRITOR A EMPRESÁRIO DE R$ 242 MILHÕES
Quando registrou a candidatura em 2026, Augusto Cury declarou R$ 242.281.162,52 em patrimônio à Justiça Eleitoral.
Era o maior patrimônio declarado entre os presidenciáveis naquele momento.
O maior item, de aproximadamente R$ 121,2 milhões, aparece como empréstimo feito à Filadélfia Nature Participações. Há ainda dezenas de milhões de reais em participações societárias, ações e outros ativos.
Uma declaração desse tamanho ajuda a desmontar outra simplificação.
Cury não é apenas um intelectual rico porque “vendeu muitos livros”.
Sua trajetória envolve propriedade intelectual, empresas, investimentos, educação e negócios rurais.
O patrimônio demonstra capacidade de transformar reputação em ativos econômicos.
Mas não demonstra, sozinho, capacidade administrativa pública.
Um balanço privado pode escolher mercado, produto, cliente e investimento.
Um governo recebe problemas que não escolheu e cidadãos que não podem ser recusados.
O candidato mais rico da disputa não é automaticamente o candidato mais preparado.
Também não é automaticamente menos preparado.
O número apenas torna mais interessante a pergunta sobre como ele enxerga riqueza, Estado e responsabilidade social.
8. “CAPITALISMO COM CORAÇÃO SOCIAL”
A frase usada por Cury para definir sua posição econômica tenta escapar dos rótulos tradicionais.
Ele fala em colocar ideias do capitalismo na mente e compromisso social no coração.
Na prática, o programa de 2026 combina responsabilidade fiscal, empreendedorismo, crédito para pequenos negócios, política industrial, formação profissional, preocupação com automação e políticas sociais.
Cury quer criar milhões de novos microempreendedores e defende linhas de crédito mais baratas para pequenos negócios. Também propõe zonas francas de exportação voltadas à tecnologia em diferentes regiões do país.
A lógica é gerar autonomia econômica em vez de tratar transferência de renda como destino permanente.
Essa formulação conversa diretamente com seu universo editorial.
A pessoa não deveria ser espectadora da própria vida.
O cidadão também não deveria ser espectador da economia.
O problema aparece quando motivação encontra estrutura.
Empreendedorismo não depende apenas de coragem.
Depende de demanda, produtividade, crédito, qualificação, segurança, infraestrutura, tributação e taxa de sobrevivência das empresas.
Um país pode formar dez milhões de empreendedores.
Mas precisa perguntar quantos negócios permanecerão vivos cinco anos depois.
Abrir CNPJ é fácil.
Construir produtividade é política econômica.
9. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL — O MEDO QUE CHEGOU À CAMPANHA
Cury colocou o impacto da inteligência artificial e da robótica sobre empregos no centro de sua visão de longo prazo.
O tema faz sentido para alguém que passou décadas falando sobre educação e adaptação mental.
Automação pode eliminar tarefas, criar outras e aumentar a pressão sobre trabalhadores cuja profissão deixa de possuir valor econômico na velocidade com que algoritmos aprendem.
O programa propõe qualificação profissional em grande escala, educação técnica e estímulo ao empreendedorismo como mecanismos de transição.
É um problema real.
Mas também é uma área em que ninguém possui uma resposta pronta.
Treinar alguém para uma profissão que será automatizada três anos depois não resolve o problema.
O desafio é criar capacidade contínua de aprendizagem.
Aqui, curiosamente, a filosofia de Cury talvez encontre uma das áreas em que sua linguagem faz mais sentido político.
A educação do século XXI não pode formar apenas para uma função.
Precisa formar pessoas capazes de aprender novamente.
A questão é como transformar essa frase correta em sistema educacional executável.
10. EDUCAÇÃO — O PROJETO MAIS CURY DO PROGRAMA
A educação é provavelmente o capítulo em que a biografia do candidato e o programa de governo mais se confundem.
Cury defende expansão da escola em tempo integral, educação técnica no ensino médio, formação de pensamento crítico, educação financeira, empreendedorismo e gestão das emoções.
Também fala em políticas específicas para estudantes neurodivergentes e famílias atípicas.
O argumento é que a escola brasileira ensina conteúdo, mas prepara pouco o estudante para lidar com frustração, ansiedade, conflito, finanças e decisões de vida.
A crítica possui força.
Qualquer professor sabe que uma criança emocionalmente desorganizada não deixa o sofrimento do lado de fora da sala de aula.
Mas o desenho nacional exigiria uma precaução decisiva.
Educação socioemocional pode ser política pública.
Ela não pode se tornar sinônimo automático de uma metodologia privada, de um autor ou de uma empresa.
O governo precisaria estabelecer critérios públicos, comparar abordagens, avaliar eficácia e permitir revisão independente.
Caso contrário, a principal especialidade do presidente poderia se tornar também um ponto cego da administração.
Quem passa a vida ensinando uma teoria precisa ser especialmente cuidadoso ao ocupar um cargo com poder para institucionalizá-la.
11. SAÚDE — TELEMEDICINA EM TRINTA MINUTOS
O programa de Cury propõe ampliar telemedicina para reduzir pressão sobre o Sistema Único de Saúde.
Uma das metas divulgadas é oferecer atendimento para casos básicos em até trinta minutos.
A ideia ataca um problema objetivo.
Muita demanda que chega a pronto atendimento não exige hospital de alta complexidade. Orientação remota, acompanhamento de condições simples e triagem podem reduzir deslocamentos e liberar unidades presenciais para situações graves.
O Brasil já avançou em telessaúde e possui escala territorial que torna a tecnologia especialmente útil.
Mas o prazo de trinta minutos é uma promessa operacional que depende de gente.
Médicos.
Enfermeiros.
Infraestrutura digital.
Integração de prontuários.
Regulação.
Proteção de dados.
Encaminhamento quando o atendimento remoto descobre algo grave.
A telemedicina pode encurtar uma fila.
Não pode ser usada para fingir que a fila deixou de existir.
12. SEGURANÇA — CÂMERAS, IA E UMA DIFERENÇA IMPORTANTE PARA A DIREITA PUNITIVA
Na segurança, Cury tenta ocupar uma posição diferente da retórica mais punitiva da direita brasileira.
Em entrevista à Folha, rejeitou expressamente o slogan “bandido bom é bandido morto” e argumentou que o problema inclui prevenção, encarceramento mal estruturado e incapacidade de agir antes do crime.
Seu programa fala em integração das polícias com apoio de inteligência artificial, tecnologia de monitoramento e respostas mais coordenadas.
Na proteção às mulheres, inclui mecanismos como botões de pânico, drones e resposta em tempo real.
É uma abordagem tecnologicamente atraente.
Mas segurança pública é um terreno em que soluções digitais frequentemente esbarram em velhos problemas analógicos.
Banco de dados que não conversa.
Polícia com sistema incompatível com outra polícia.
Município sem infraestrutura.
Investigação sem pessoal.
Presídio controlado por facção.
Fronteira gigantesca.
Tecnologia pode multiplicar capacidade.
Também multiplica a capacidade de uma estrutura ruim fazer algo errado mais rapidamente.
O desafio não é colocar inteligência artificial na polícia.
É decidir que inteligência institucional estará por trás dela.
13. O SEMIPRESIDENCIALISMO — O PRESIDENTE QUE QUER DIVIDIR A PRESIDÊNCIA
A proposta institucional mais conhecida de Cury é o semipresidencialismo.
Nesse modelo, o presidente manteria funções estratégicas enquanto um primeiro-ministro, sustentado politicamente pelo Congresso, cuidaria da gestão cotidiana do governo.
Cury argumenta que isso reduziria conflitos, tornaria crises de governo menos traumáticas e permitiria ao chefe de Estado concentrar-se em estratégia, relações exteriores e funções nacionais de longo prazo.
A proposta possui precedentes internacionais e já foi discutida no Brasil por juristas e políticos.
Mas não é uma reforma administrativa comum.
Muda a arquitetura do poder.
Exigiria alteração constitucional ampla e, na visão apresentada pelo próprio Cury, consulta popular.
O candidato chegou a citar Tarcísio de Freitas como alguém que consideraria para primeiro-ministro num eventual governo.
A imagem é reveladora.
Cury não quer apenas ser presidente.
Quer mudar o significado do cargo ao qual concorre.
É uma maneira bastante sofisticada de resolver o problema da falta de experiência administrativa: construir um sistema no qual a rotina administrativa seria compartilhada com alguém escolhido para isso.
A solução, porém, cria outra pergunta.
Se o primeiro-ministro conduz o governo cotidiano e depende do Congresso, quem o eleitor estará realmente elegendo ao votar em Augusto Cury?
14. O STF DE NOVE MINISTROS E O FIM DA CADEIRA VITALÍCIA
O plano também propõe reformar o Supremo Tribunal Federal.
Cury defende reduzir a Corte de onze para nove ministros, criar mandatos fixos de oito anos e retirar do presidente da República o poder de escolher sozinho os nomes encaminhados ao Senado.
A formulação divulgada pela campanha prevê participação de categorias como magistratura, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil no processo de indicação.
A intenção declarada é reduzir personalização, dependência política e conflitos entre Poderes.
É uma mudança estrutural.
E justamente por isso precisa ser analisada além da simpatia que alguém tenha ou não pelo STF atual.
Mandato fixo pode aumentar renovação.
Também pode tornar cada troca de composição ainda mais politicamente previsível.
Indicações corporativas podem reduzir poder presidencial.
Também podem ampliar poder de corporações jurídicas que não recebem voto popular.
Reformas institucionais raramente eliminam poder.
Normalmente mudam quem o possui.
A pergunta correta não é apenas se o presidente deveria indicar ministros.
É quem ganha poder quando ele deixa de indicar.
15. JÚLIO DELGADO — O OUTSIDER ESCOLHE UM HOMEM DO CONGRESSO
Em 5 de agosto, Cury anunciou Júlio Delgado como candidato a vice-presidente.
A escolha é politicamente inteligente justamente porque parece contradizer a biografia do cabeça de chapa.
Cury nunca exerceu mandato.
Delgado passou seis mandatos na Câmara dos Deputados.
Foi líder partidário, integrante da Mesa Diretora, candidato à presidência da Casa e participou de comissões e negociações parlamentares.
O escritor oferece novidade.
O vice oferece memória institucional.
É uma solução para a pergunta mais óbvia sobre a candidatura: quem conhece o Congresso dentro dessa chapa?
Mas a solução produz um pequeno paradoxo.
A candidatura se apresenta como alternativa à velha polarização e à política tradicional, mas escolhe como complemento exatamente alguém que conhece profundamente a política tradicional.
Talvez isso não seja contradição.
Talvez seja maturidade.
Quem quer mudar uma máquina deveria, no mínimo, levar alguém que saiba onde ficam os parafusos.
16. DIPLOMACIA — UM “SECRETÁRIO DE ESTADO” BRASILEIRO
Cury também propõe redesenhar a diplomacia econômica e chegou a defender que o ministro das Relações Exteriores funcione com peso comparável ao de um “secretário de Estado” dos Estados Unidos.
O objetivo é colocar comércio, atração de investimentos e estratégia internacional no centro da política externa.
A mudança de nome, isoladamente, teria pouco efeito.
O que importa é poder, coordenação e missão institucional.
O Itamaraty já é uma burocracia profissional com presença mundial.
Transformá-lo em instrumento mais agressivo de promoção econômica exigiria integração com Fazenda, Desenvolvimento, Agricultura, indústria, empresas e estados.
A diplomacia comercial moderna é menos sobre cerimônia e mais sobre cadeia de suprimentos, minerais críticos, semicondutores, energia, tecnologia e acesso a mercados.
Aqui Cury tenta fazer com o país algo parecido com o que fez com a própria carreira.
Transformar reputação em circulação internacional.
Só que vender livros em setenta países é muito diferente de negociar tarifa com eles.
17. FAÇA A HUMANIDADE GRANDE OUTRA VEZ
Talvez nenhuma proposta revele melhor o lado idealista de Cury do que o plano internacional contra a fome.
Seu programa utiliza a expressão em inglês “Make Humanity Great Again”, uma adaptação deliberada do slogan político de Donald Trump.
A campanha propõe um Fundo Internacional de Erradicação da Fome financiado por 0,5% de arrecadações ligadas ao comércio mundial e 2% da indústria global de armamentos.
Segundo o documento, isso poderia produzir centenas de bilhões de dólares por ano.
A ambição é moralmente clara.
Num mundo capaz de movimentar trilhões em comércio e armas, aceitar fome em massa seria uma escolha política, não uma impossibilidade econômica.
O problema é soberania.
Um presidente brasileiro não possui autoridade para criar sozinho uma contribuição sobre comércio global ou indústria bélica mundial.
A proposta dependeria de tratados, adesão de governos, mecanismos de cobrança e governança internacional.
Ou seja, o plano funciona melhor como agenda diplomática do que como promessa executiva brasileira.
Cury quer transformar o Brasil em convocador de uma coalizão moral.
É legítimo.
Mas existe uma diferença gigantesca entre lançar uma ideia diante da ONU e fazer países enviarem dinheiro para ela.
A humanidade costuma concordar muito mais facilmente com discursos contra a fome do que com a parte em que alguém precisa pagar a conta.
18. O CANDIDATO DA PACIFICAÇÃO ENTROU NUMA ELEIÇÃO FEITA PARA CONFLITO
Desde a pré-candidatura, Cury tenta ocupar o espaço da pacificação.
Ele diz querer extrair o melhor de ideias tradicionalmente associadas à esquerda e à direita, reduzir hostilidade e deslocar o debate para projetos.
Essa linguagem combina perfeitamente com seus livros.
Pensar antes de reagir.
Não transformar adversário em inimigo.
Controlar impulsos.
O problema é que campanha eleitoral recompensa exatamente muitas das coisas que Cury passou a vida criticando.
Conflito gera clique.
Ataque produz manchete.
Humilhação vira corte.
Uma fala ponderada de três minutos perde para uma provocação de oito segundos.
A campanha já sentiu essa dificuldade operacional.
Em agosto, Cury trocou de marqueteiro poucos dias antes do início da propaganda de rádio e televisão. A equipe anterior relatou divergências financeiras e estratégicas, inclusive sobre recursos para impulsionamento digital.
O novo responsável, Sergio Lima, já havia trabalhado na campanha de Jair Bolsonaro em 2018.
É uma ironia bastante Chumbi.
O candidato que quer desintoxicar a política emocionalmente precisa aprender a sobreviver no ambiente de comunicação que mais premia intoxicação.

19. O CANDIDATO MAIS RICO TEM TRINTA E CINCO SEGUNDOS
Patrimônio pessoal e estrutura eleitoral não são a mesma coisa.
Essa diferença fica quase cômica no caso de Cury.
Ele declarou mais de R$ 242 milhões em bens, o maior patrimônio da disputa presidencial de 2026.
Ainda assim, o Avante recebeu apenas 35 segundos no bloco de propaganda eleitoral no rádio e na televisão definido pelo TSE para o primeiro turno.
A distribuição do tempo depende da representação partidária, não da conta bancária do candidato.
Isso produz uma aula instantânea sobre política institucional.
Você pode vender milhões de livros.
Pode ter centenas de milhões em patrimônio.
Pode possuir milhões de seguidores.
E ainda assim descobrir que o sistema eleitoral mede outra coisa.
Bancada.
Partido.
Estrutura.
Aliança.
Cury entra na política como alguém extremamente bem-sucedido fora dela e imediatamente encontra uma realidade que dinheiro pessoal não resolve sozinho.
Talvez essa seja a primeira grande diferença entre best-seller e eleição.
Na livraria, sucesso anterior garante espaço na prateleira.
Na política, a prateleira pertence ao partido.
20. DOIS POR CENTO — MAS COM BAIXA REJEIÇÃO
Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto, Augusto Cury aparecia com 2% das intenções de voto no primeiro turno.
No levantamento BTG/Nexus divulgado três dias depois, marcava 1%.
Os números o colocam longe da polarização principal entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Mas há um dado interessante.
Na Quaest, sua rejeição era de 16%, muito abaixo das taxas registradas pelos dois líderes.
Rejeição baixa não é voto.
Pode significar simplesmente desconhecimento.
Mas oferece uma oportunidade a candidatos pequenos.
É mais fácil convencer alguém que ainda não formou opinião do que alguém que já decidiu que jamais votará em você.
A televisão percebeu essa presença mínima porém relevante.
Cury está entre os seis presidenciáveis selecionados pela Globo para a série de entrevistas que começa em 24 de agosto; sua entrevista está prevista para o dia 29.
O candidato precisa transformar uma carreira em que milhões compravam seu livro sabendo quem ele era numa eleição em que milhões ainda não o imaginam como presidente.
A batalha inicial não é contra Lula ou Flávio.
É contra a categoria mental em que o eleitor colocou Augusto Cury durante décadas.
Escritor.
Palestrante.
Psiquiatra.
Presidente ainda precisa entrar nessa lista.
21. O PROBLEMA DO ESPECIALISTA QUE VIRA GENERALISTA
Existe uma armadilha comum para candidatos que chegam de uma área de grande sucesso.
O empresário acredita que o país é uma empresa.
O militar enxerga problemas como questões de comando.
O jurista encontra solução em norma.
O economista encontra solução em incentivos.
O médico encontra diagnóstico.
Cury corre o risco específico de enxergar política como psicologia ampliada.
Polarização vira falha emocional.
Violência vira incapacidade de prevenção e gestão psíquica.
Educação vira formação da mente.
Liderança vira maturidade emocional.
Tudo isso contém alguma verdade.
Mas países também quebram por câmbio, produtividade, desenho tributário, logística, energia, conflito federativo e decisões externas que não possuem qualquer interesse na saúde emocional brasileira.
Um bom presidente precisa reconhecer aquilo que sua especialidade não explica.
Talvez esse seja o teste intelectual mais importante de Augusto Cury.
Não demonstrar que sua teoria explica muito.
Demonstrar que sabe exatamente onde ela deixa de explicar.
22. QUEM É AUGUSTO CURY QUANDO FECHAMOS O LIVRO?
Existe o menino de Colina.
Existe o médico formado em São José do Rio Preto.
Existe o psiquiatra e psicoterapeuta.
Existe o autor que transformou ansiedade, emoção e pensamento em uma obra de alcance internacional.
Existe o criador da Teoria da Inteligência Multifocal.
Existe o empresário cujo programa educacional tornou-se um ativo comprado pela Arco Educação.
Existe o homem que declarou R$ 242 milhões em patrimônio.
Existe o pensador cuja teoria é contestada por psiquiatras que cobram validação científica mais robusta.
Existe o autor que responde dizendo que os críticos não compreenderam toda a proposta e que seus conceitos possuem aplicação e evidências em diferentes contextos.
Existe o candidato que quer responsabilidade fiscal e microempreendedorismo, mas também política social e um fundo mundial contra a fome.
Existe o defensor do semipresidencialismo que escolheu como vice um ex-deputado de seis mandatos.
Existe o pacificador que entrou numa eleição polarizada.
E existe o estreante que decidiu começar sua carreira eleitoral pelo último andar.
Nenhuma dessas versões, sozinha, explica o personagem.
Juntas, elas mostram por que sua candidatura merece análise mesmo com apenas 1% ou 2% nas pesquisas.
Cury não está apenas pedindo voto.
Está submetendo ao teste da política aquilo que construiu durante toda a vida como visão de ser humano.
EPÍLOGO — A MENTE NÃO APROVA O ORÇAMENTO
Augusto Cury conhece uma habilidade que falta a muita gente na política.
Ele sabe falar sobre fragilidade sem parecer fraco.
Sabe transformar ansiedade em linguagem.
Sabe construir esperança sem precisar prometer que sofrimento desaparecerá amanhã.
Isso ajuda a explicar milhões de leitores.
Mas a Presidência contém um problema que nenhum livro de desenvolvimento pessoal consegue eliminar.
O mundo externo existe.
O Congresso pode rejeitar a proposta.
O Supremo pode considerá-la inconstitucional.
O mercado pode desconfiar.
O governador pode não aderir.
O prefeito pode não executar.
A guerra pode elevar o petróleo.
A seca pode destruir a safra.
O orçamento pode simplesmente não fechar.
Não importa quanto o presidente saiba administrar a emoção diante disso.
Ele ainda terá de resolver isso.
Talvez a candidatura de Cury seja um dos experimentos mais curiosos de 2026 justamente por esse motivo.
Durante décadas, ele ensinou que ninguém deveria ser escravo da própria mente.
Agora descobre que governar exige uma lição complementar.
Nem tudo que limita uma pessoa está dentro dela.
E nem tudo que limita um país pode ser resolvido mudando a maneira como ele pensa.
A mente pode ajudar a construir o governo.
Mas não aprova o orçamento.
FONTES PRINCIPAIS
1. TSE / cobertura de registro — candidatura e patrimônio declarado
2. Agência Brasil — Avante oficializa Augusto Cury à Presidência
3. CNN Brasil — Júlio Delgado é anunciado como vice
4. Folha de S.Paulo — perfil biográfico de Augusto Cury
5. Famerp — Augusto Cury e sua formação em Medicina
6. Site oficial de Augusto Cury — obra e alcance editorial
7. HarperCollins Brasil — biografia editorial e Escola da Inteligência
8. Arco Platform / BusinessWire — fechamento da aquisição da Escola da Inteligência
9. SEC — documentos financeiros da Arco sobre aquisição da Escola da Inteligência
11. Revista Criar Educação / UNESC — análise acadêmica da Teoria Multifocal e Escola da Inteligência
12. Folha de S.Paulo — plano de governo e fundo internacional contra a fome
13. Cobertura do plano de governo — 18 projetos estruturais e reformas institucionais
14. Bahia Notícias — entrevista de Cury sobre semipresidencialismo
15. BHAZ — lançamento de campanha e prioridades programáticas
16. Folha de S.Paulo — troca de marqueteiro na campanha
17. UOL / Quaest — pesquisa presidencial de 14 de agosto de 2026
18. UOL — TSE define 35 segundos de TV para o Avante no 1º turno
19. Folha de S.Paulo — entrevistas da Globo com seis presidenciáveis
20. UOL — patrimônio dos candidatos em 2026
Verificação factual: 20 de agosto de 2026. Este perfil não recomenda voto.





