Da queda do Império ao golpe de 1964.

Como golpes, reformas e crises construíram o caminho de Deodoro a João Goulart — e por que 1964 começou muito antes de 1964.

TESE CENTRAL — A República brasileira não fracassou por falta de presidentes capazes, mas porque suas instituições foram repetidamente aceitas apenas enquanto produziam resultados toleráveis aos grupos com força para interrompê-las. Entre 1889 e 1964, o país ampliou direitos, participação e capacidade estatal sem resolver quem tinha a palavra final quando voto, quartel e poder econômico entravam em conflito.

ATO 1

A REPÚBLICA QUENUNCA FICOU PRONTA

A República que nasceu sem o povo

A República que nasceu sem o povo

Pintura de Benedito Calixto representando a Proclamação da República
Proclamação da República, pintura de Benedito Calixto, 1893. Acervo público / Wikimedia Commons, domínio público.

Na manhã de 15 de novembro de 1889, o Brasil acordou como uma monarquia.

Antes que o dia terminasse, era uma República.

Não houve eleição.

Não houve plebiscito.

Não houve uma multidão revolucionária derrubando os portões do poder.

Houve tropas nas ruas do Rio de Janeiro, oficiais conspirando, informações falsas circulando e um marechal conduzido ao centro de uma crise que nem sequer havia começado com um plano perfeitamente definido para derrubar o imperador.

Dom Pedro II perdeu o trono. A família imperial recebeu ordem para deixar o país. E o Brasil ganhou seu primeiro presidente.

O detalhe inconveniente é que quase ninguém havia escolhido aquele presidente.

Na verdade, quase ninguém havia sido consultado sobre a mudança do próprio regime.

“O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.”

Não era a reclamação de um monarquista derrotado. Aristides Lobo ajudara a preparar o movimento e integrava o novo governo. Seu testemunho está preservado nos registros do CPDOC da Fundação Getulio Vargas e do Arquivo do Senado Federal.

Ver também: Arquivo do Senado Federal — ausência do povo na Constituinte.

O país mudara de regime. O povo ainda tentava descobrir o que tinha acontecido.

E foi assim que a República brasileira começou: proclamando a soberania popular diante de uma população que não participara da proclamação.

O imperador ainda não sabia que havia caído

A queda da Monarquia costuma aparecer nos quadros históricos como uma cena organizada: Deodoro sobre um cavalo, soldados perfeitamente alinhados, o gesto solene e a República surgindo inteira, pronta e inevitável.

Mas os acontecimentos reais foram muito mais confusos.

Na madrugada de 15 de novembro, circulou entre os militares a informação de que o governo prenderia Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant. O boato foi deliberadamente espalhado pelo major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro para precipitar a mobilização das tropas.

Era informação falsa. Mas boatos não precisam ser verdadeiros quando encontram pessoas dispostas a acreditar neles.

Deodoro estava debilitado por problemas respiratórios. Não era o republicano doutrinário que as pinturas posteriores ajudariam a construir. Era amigo de Dom Pedro II, servira à Monarquia e resistira inicialmente à ideia de derrubá-la.

O que o mobilizava era principalmente o conflito entre o governo civil e o Exército — além da perspectiva de ver chegar ao poder Gaspar Silveira Martins, seu adversário político e pessoal.

Deodoro saiu de casa para enfrentar o gabinete chefiado pelo visconde de Ouro Preto. Derrubar o ministério não significava necessariamente derrubar o imperador. No sistema monárquico, gabinetes podiam cair e ser substituídos sem que o regime desaparecesse.

A República brasileira, portanto, não nasceu de uma marcha linear conduzida por homens que compartilhavam exatamente os mesmos objetivos. Havia republicanos civis, jovens oficiais influenciados pelo positivismo, militares preocupados com a honra do Exército, proprietários ressentidos com a abolição, defensores do federalismo e adversários do gabinete Ouro Preto.

Todos caminhavam na mesma direção. Mas não necessariamente para o mesmo lugar.

A documentação sobre a mudança de posição de Deodoro e a influência da boataria pode ser consultada no verbete de Silveira Martins no CPDOC.

É sempre reconfortante saber que a primeira grande mudança republicana do Brasil foi decidida com planejamento, serenidade e informações rigorosamente verificadas. Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

Não foi “todo o Exército”

Outra imagem construída posteriormente apresenta a Proclamação como uma ação unificada das Forças Armadas. Também não foi assim.

A interpretação do historiador Celso Castro mostra um movimento militar muito mais restrito:

  • houve participação mínima da Marinha;
  • poucos oficiais superiores estiveram diretamente envolvidos;
  • entre os generais, apenas Deodoro compareceu;
  • a conspiração foi impulsionada principalmente por jovens oficiais do Exército;
  • muitos deles haviam passado pela Escola Militar da Praia Vermelha.

Era a chamada mocidade militar.

Esses jovens formavam um grupo educado em ambiente marcado pelo cientificismo, pelo positivismo e pela valorização do mérito profissional. Consideravam-se representantes de uma instituição moderna, racional e nacional — mas enxergavam o governo civil como incapaz de reconhecer o Exército e conduzir o país.

Benjamin Constant, professor de matemática na Escola Militar, tornou-se referência para esses oficiais. Pesquisas destacadas pelo CPDOC indicam também o movimento inverso à narrativa tradicional: os próprios jovens oficiais empurraram o professor para uma atuação política cada vez mais radical.

Não era todo o Exército. Era uma parcela organizada, ideologicamente mobilizada e posicionada em pontos decisivos da capital.

Mas, quando homens armados ocupam o centro político, não precisam representar toda a instituição. Precisam apenas encontrar pouca resistência.

Análise histórica: CPDOC/FGV — 15 de novembro de 1889: a Proclamação da República.

O Império não caiu apenas porque estava “velho”

Seria tentador dizer que a Monarquia simplesmente perdeu sua validade histórica e desabou. Mas regimes políticos raramente desaparecem apenas porque envelhecem. O Império enfrentava uma combinação perigosa de rupturas.

A Igreja

Desde a década de 1870, o governo imperial enfrentava conflitos com setores da Igreja Católica na chamada Questão Religiosa. O catolicismo era a religião oficial, mas a Igreja estava submetida ao padroado, que dava ao imperador poder sobre decisões eclesiásticas no país. Bispos que tentaram aplicar determinações papais contra maçons entraram em choque com o governo e chegaram a ser presos. A crise não tornou toda a Igreja republicana, mas desgastou uma das bases simbólicas da Monarquia.

Os militares

Depois da Guerra do Paraguai, parte do Exército voltou mais consciente de sua identidade institucional e mais insatisfeita com o controle exercido pelos políticos civis.

A Questão Militar foi uma série de confrontos envolvendo punições, manifestações públicas de oficiais, reivindicações corporativas e discussões sobre o lugar do Exército na vida nacional.

A instituição que se considerava responsável por defender o país começou a perguntar se também não deveria orientá-lo.

Documento de referência: CPDOC/FGV — Questão Militar.

Os proprietários escravistas

Em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea extinguiu juridicamente a escravidão no Brasil.

A abolição foi uma conquista construída por décadas de resistência dos escravizados, fugas, revoltas, movimentos abolicionistas, ações judiciais e transformações econômicas. Mas ocorreu sem indenização aos antigos proprietários e sem uma política ampla de terra, educação, trabalho ou reparação para os libertos.

Parte da elite escravista afastou-se da Monarquia — menos por conversão filosófica do que por ressentimento econômico.

A Monarquia perdera apoio entre setores da Igreja, enfrentava ressentimento dentro do Exército e já não podia contar integralmente com antigos senhores de escravos. Enquanto isso, o republicanismo crescia nas cidades e em províncias economicamente importantes.

Nada disso tornava inevitável a queda de Dom Pedro II. Mas tornava o regime cada vez mais isolado.

E governos isolados não precisam estar completamente destruídos para cair. Precisam apenas descobrir, no pior momento possível, que quase ninguém está disposto a defendê-los.

O golpe que virou proclamação

Em 15 de novembro, as tropas mobilizadas dirigiram-se ao Campo de Santana, onde estava o Quartel-General. O gabinete do visconde de Ouro Preto caiu.

Mas a deposição do ministério ainda não encerrava automaticamente a Monarquia.

O passo decisivo — transformar a derrubada do gabinete na derrubada do regime — amadureceu ao longo daquele dia, pressionado pelos republicanos e pelos rumores sobre quem Dom Pedro II escolheria para formar um novo governo.

O imperador tentou reagir dentro das regras monárquicas: substituir o gabinete e preservar o regime. Mas a política já havia saído dos gabinetes.

E quando o centro real de decisão passa para os quartéis, trocar ministros torna-se uma solução administrativa para um problema que já deixou de ser administrativo.

Naquela noite, a República estava estabelecida.

O Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889, declarou provisoriamente a República Federativa, transformou as antigas províncias em estados e colocou o país sob um governo provisório chefiado por Deodoro da Fonseca.

O artigo 7º prometia aguardar o pronunciamento definitivo do voto nacional. Essa confirmação direta, porém, não veio.

O plebiscito nacional entre República e Monarquia só seria realizado em 1993, mais de um século depois, por determinação da Constituição de 1988.

Durante 104 anos, o regime proclamado provisoriamente aguardou com admirável tranquilidade a pergunta que havia prometido fazer.

A República seria confirmada pelo povo. Só não imediatamente. Primeiro seria necessário organizar o governo, elaborar uma Constituição, atravessar golpes, revoltas, ditaduras e esperar aproximadamente um século. Nada que justificasse pressa.

Uma República antes dos republicanos

Dom Pedro II não organizou resistência. A família imperial recebeu ordem para partir e deixou o Brasil na madrugada de 17 de novembro.

Não houve uma guerra nacional entre monarquistas e republicanos. Isso pode dar a impressão de que o novo regime possuía apoio consolidado. Não possuía.

A ausência de resistência não é o mesmo que consentimento.

A Monarquia estava enfraquecida, Dom Pedro II mostrava pouca disposição para provocar derramamento de sangue e os principais centros militares da capital já estavam sob controle dos revoltosos.

O novo governo ocupou rapidamente as instituições, substituiu autoridades provinciais e subordinou repartições civis e militares à administração provisória.

A República não precisou conquistar imediatamente a população. Precisou conquistar o Estado. E conquistou.

O governo provisório reunia Deodoro da Fonseca, Benjamin Constant, Rui Barbosa, Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo e Eduardo Wandenkolk.

Em torno deles existiam projetos diferentes de República: federalistas, positivistas, liberais, defensores de um Executivo forte e militares à procura de reconhecimento e autoridade.

As divergências ainda estavam encobertas pela vitória. Mas não permaneceriam assim por muito tempo.

Derrubar a Monarquia havia sido a parte fácil. Agora seria necessário responder a uma pergunta bastante mais difícil: quem governaria a República?

O primeiro presidente e a primeira ruptura

Deodoro começou como chefe do Governo Provisório.

Em 24 de fevereiro de 1891, foi promulgada a primeira Constituição republicana. No dia seguinte, o Congresso elegeu indiretamente Deodoro presidente e Floriano Peixoto vice-presidente.

Eles não formavam propriamente uma chapa política coesa. A eleição dos dois cargos era separada, permitindo que presidente e vice fossem escolhidos entre forças diferentes.

A Constituição pretendia transformar a ruptura de 1889 numa ordem institucional. O país agora possuía federação, presidencialismo, separação formal entre Igreja e Estado, maior autonomia estadual, Congresso bicameral, mandato presidencial e o fim do Poder Moderador imperial.

No papel, a República começava a adquirir forma. Na prática, o primeiro presidente logo entrou em choque com o primeiro Congresso.

A economia atravessava a crise do Encilhamento, associada à expansão descontrolada do crédito, abertura de empresas sem bases sólidas, especulação financeira, desvalorização cambial e inflação.

Empresas apareciam no papel. Ações subiam. Fortunas pareciam nascer em poucos dias. A produção real, discretamente, tentava acompanhar a imaginação financeira.

Quando a confiança desabou, ficaram a inflação, as falências e o desgaste do governo.

Ao mesmo tempo, o Congresso buscava limitar o poder presidencial. Deodoro reagiu.

Em 3 de novembro de 1891, pouco mais de oito meses depois da promulgação da Constituição, o homem que inaugurara a ordem constitucional fechou o Congresso e decretou estado de sítio.

A primeira Presidência da República terminava repetindo o método que havia criado a própria República: quando a negociação política se tornou difícil, surgiu novamente a força.

Mas dessa vez a resistência apareceu. Setores da Marinha ameaçaram reagir, estados se opuseram e uma guerra civil tornou-se possível.

Sem apoio suficiente para sustentar o golpe, Deodoro renunciou em 23 de novembro de 1891. Seu governo constitucional durara nove meses.

A República tinha apenas dois anos e já havia produzido um golpe para nascer, uma Constituição para se organizar, outro golpe para suspender essa Constituição e uma crise militar para derrubar o golpista.

Cronologia e documentos: Senado 200 Anos — Constituição, dissolução do Congresso e renúncia de Deodoro.

Estava inaugurada a estabilidade republicana brasileira.

O pecado original

Seria exagerado afirmar que 1964 estava decidido em 1889. Não estava.

A História não funciona como uma linha ferroviária em que o primeiro trilho determina obrigatoriamente a última estação.

Entre Deodoro e Jango, houve eleições, movimentos populares, reformas, revoluções, resistências e oportunidades reais de construir outros caminhos.

Mas o golpe de 1889 estabeleceu um precedente.

Os militares haviam demonstrado que podiam:

  1. interpretar uma crise política como ameaça nacional;
  2. retirar o governo existente;
  3. reorganizar as instituições;
  4. apresentar sua intervenção como salvação da ordem;
  5. devolver o poder aos civis quando julgassem apropriado.

Esse padrão não seria repetido de maneira idêntica. Seria adaptado.

Nas décadas seguintes, diferentes grupos políticos aprenderiam a procurar os quartéis quando não conseguissem vencer seus adversários apenas pelas instituições.

E setores militares aprenderiam a se enxergar não somente como defensores do território, mas como tutores da própria nacionalidade.

A República havia prometido retirar o destino político das mãos de uma família imperial. Mas não o entregou plenamente à população. Entregou-o inicialmente a uma aliança entre militares e civis influentes.

O imperador partiu. O povo permaneceu. E a pergunta continuou aberta:

Se a República pertencia ao povo, por que o povo continuava fora dela?

A resposta começaria a aparecer nos anos seguintes.

Os militares haviam inaugurado o regime. Agora, as grandes oligarquias rurais aprenderiam a controlá-lo.

E o Brasil descobriria uma forma engenhosa de realizar eleições sem permitir que a vontade popular ameaçasse seriamente os donos do poder.

ATO 2

A REPÚBLICA APRENDEUA VOTAR SEM ESCOLHER

Como o voto virou confirmação, o coronel virou intermediário e a estabilidade política preparou sua própria destruição

Os militares haviam derrubado a Monarquia. Mas não poderiam permanecer indefinidamente governando um país continental, negociando dívidas, administrando estados, distribuindo cargos e resolvendo todas as disputas locais.

A República precisava de civis. Precisava de eleições. Precisava de presidentes que parecessem resultar da vontade nacional — e não apenas da movimentação de tropas no Campo de Santana.

Em 1894, o Brasil finalmente elegeu seu primeiro presidente civil pelo voto direto. Chamava-se Prudente de Morais: advogado paulista e representante das elites cafeeiras.

A República parecia pronta para abandonar os quartéis e entrar na normalidade constitucional.

Parecia.

Porque os militares deixariam temporariamente o centro do palco, mas o povo não entraria no lugar deles.

Entrariam os grandes proprietários rurais, os chefes políticos estaduais e uma criatura muito particular da vida brasileira: o coronel.

Não necessariamente um coronel do Exército. Mas um homem que controlava terras, empregos, favores, proteção, transporte, crédito e, quando necessário, alguns homens armados.

O eleitor poderia finalmente escolher seus representantes. Desde que escolhesse corretamente.

Uma democracia com a porta estreita

A Constituição de 1891 apresentou avanços reais. O Brasil tornou-se formalmente uma federação, as antigas províncias transformaram-se em estados dotados de autonomia e o presidente passaria a ser eleito diretamente.

Mas o novo regime não criou o sufrágio universal.

O artigo 70 admitia cidadãos maiores de 21 anos devidamente alistados, mas excluía analfabetos, mendigos, soldados de baixa patente e determinados integrantes de ordens religiosas submetidos a voto de obediência.

As mulheres também permaneceram afastadas da participação eleitoral. Propostas de inclusão feminina chegaram a ser debatidas durante a Constituinte, mas foram derrotadas.

Em um país no qual a maioria da população não sabia ler nem escrever, excluir os analfabetos significava manter a maior parte dos brasileiros fora da política.

A República abolira o requisito de renda do Império. Em seu lugar, conservou uma barreira perfeitamente adequada à desigualdade brasileira: o pobre alfabetizado poderia votar, mas a maioria dos pobres não tinha acesso à alfabetização.

O voto dos analfabetos, eliminado ainda no Império pela Lei Saraiva de 1881, só seria restabelecido em 1985 — 104 anos depois.

Texto constitucional: Constituição de 1891 — artigo 70.

Debates e emendas: Arquivo da Câmara — Constituinte de 1890–1891.

Trajetória do sufrágio dos analfabetos: Tribunal Superior Eleitoral.

A República não proibia o pobre de votar por ser pobre. Proibia-o apenas se fosse analfabeto — depois de deixá-lo sem escola. Era uma exclusão muito mais moderna.

O voto existia — o eleitor é que precisava de supervisão

Mesmo entre os poucos que podiam votar, a liberdade eleitoral era limitada. Não havia uma Justiça Eleitoral independente, cadastro nacional confiável nem garantias modernas de sigilo.

As mesas eram organizadas por autoridades locais, as cédulas podiam ser preparadas previamente e as forças interessadas no resultado participavam da apuração. Em muitas localidades, quem controlava a eleição era o mesmo grupo que precisava vencê-la.

Essa é a chave para compreender o coronelismo.

O coronel podia conseguir emprego, fornecer transporte, intermediar atendimento médico, emprestar dinheiro, permitir o uso de uma terra, proteger alguém de uma autoridade — ou retirar todos esses favores.

Onde o Estado era distante, ele aparecia como intermediário entre a população e os serviços públicos. O favor substituía o direito. A lealdade política pagava o favor. E o voto fechava a conta.

No dia da eleição, eleitores podiam ser transportados e mantidos em currais eleitorais, sob vigilância. Alguns recebiam a cédula pronta. Outros eram instruídos sobre o nome em que deveriam votar.

Era o voto de cabresto. O eleitor possuía voto. Mas o coronel possuía o eleitor.

Funcionamento dos currais e das fraudes: CPDOC/FGV — Eleição a bico de pena.

Quando nem o eleitor precisava existir

Controlar pessoas reais era apenas uma das possibilidades. Também existiam fraudes no alistamento, nas atas e na contagem.

Nomes podiam ser acrescentados, resultados modificados e atas fabricadas longe das urnas. Eleitores mortos podiam demonstrar admirável compromisso com a democracia e comparecer politicamente depois do falecimento.

A expressão eleição a bico de pena descrevia a capacidade de produzir resultados usando tinta, papel e autoridade local.

Mesmo depois de eleito, o candidato precisava ser reconhecido pelo próprio Legislativo. A Comissão de Verificação de Poderes analisava diplomas e confirmava quem poderia assumir.

Em princípio, serviria para eliminar fraudes. Na prática, tornou-se outra arma política. O oposicionista podia vencer localmente e ainda assim ser eliminado na chamada degola.

Ele não perdia necessariamente nas urnas. Perdia depois delas.

Dados e regras eleitorais do período: TSE — Almanaque da Primeira República.

O eleitor votava. A mesa eleitoral contava. O coronel conferia. E o Congresso decidia se a realidade estava correta.

A máquina perfeita de Campos Sales

Nos primeiros anos, a instabilidade continuava. Deodoro fechara o Congresso e renunciara. Floriano enfrentara revoltas. Prudente de Morais sobrevivera a crises, à Guerra de Canudos e a um atentado que matou seu ministro da Guerra.

Em 1898, Campos Sales construiu uma solução: a Política dos Governadores, também chamada Política dos Estados.

O presidente não combateria as oligarquias estaduais. Governaria por meio delas. Os governadores entregariam bancadas leais ao governo federal; em troca, o presidente evitaria interferir nos estados controlados por eles.

O coronel controlava o eleitor. O governador controlava os coronéis. O presidente negociava com os governadores. E o Congresso, formado a partir desse sistema, sustentava o presidente.

O Brasil finalmente encontrara estabilidade política. Só precisou reduzir drasticamente a possibilidade de mudança.

O pacto e a Comissão de Verificação: CPDOC/FGV — Política dos Governadores.

A política do café com leite — que não era tão simples

É comum resumir a Primeira República como uma alternância automática entre São Paulo e Minas Gerais. A imagem é didática, mas simplificada.

São Paulo possuía a riqueza do café e uma elite econômica poderosa. Minas contava com enorme número de municípios e a maior bancada eleitoral do país.

A aliança era decisiva, mas não constituía uma alternância perfeita. Houve presidentes de outros estados, candidaturas militares e momentos em que paulistas e mineiros ficaram em lados opostos.

Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro também participavam das negociações. A política do café com leite descreve uma hegemonia, não uma dança perfeitamente coreografada.

São Paulo e Minas não governavam sozinhos. Mas era muito difícil governar contra os dois ao mesmo tempo.

O país crescia por cima

Enquanto a máquina eleitoral funcionava, o Brasil mudava. O café impulsionava exportações, ferrovias, bancos e infraestrutura. Imigrantes chegavam, cidades cresciam e a indústria ganhava espaço.

A República exibia avenidas, portos, iluminação e prédios inspirados nas capitais europeias. O Rio de Janeiro seria reformado para apresentar ao mundo a imagem de um país moderno.

Mas a modernização urbana não eliminou a pobreza. Frequentemente apenas a empurrou para longe da paisagem oficial. Famílias expulsas das áreas centrais procuraram os subúrbios e os morros.

Em 1904, a campanha sanitária contra a varíola, conduzida em meio às demolições e à atuação invasiva do Estado, desencadeou a Revolta da Vacina.

A vacina possuía fundamento científico e a varíola era uma ameaça real. Mas a população já sofria remoções, fiscalização agressiva e intervenções executadas com pouca explicação e quase nenhuma participação.

A revolta não foi simplesmente uma explosão irracional contra a ciência. Foi também uma reação a um Estado que aparecia dentro das casas depois de permanecer ausente na garantia de direitos.

Acervo histórico e fotográfico: Brasiliana Fotográfica — Revolta da Vacina.

O Estado ainda não havia conseguido entrar na casa do cidadão com escola, saneamento e segurança. Mas descobriu uma maneira bastante eficiente de entrar com a polícia.

O povo que não votava continuava fazendo política

A baixa participação eleitoral não significa que a população fosse passiva. Os excluídos das urnas fizeram política por meio de greves, associações, jornais, irmandades, revoltas, movimentos religiosos e resistência cotidiana.

A Primeira República foi estável apenas quando observada a partir dos palácios. Fora deles, o país ardia.

Canudos

No sertão baiano, milhares de pessoas reuniram-se em torno de Antônio Conselheiro e formaram Belo Monte, conhecida como Canudos.

Eram sertanejos pobres, antigos escravizados e trabalhadores sem terra que buscavam proteção numa região marcada por seca, violência e abandono.

A comunidade foi interpretada como ameaça monarquista. O Exército enviou quatro expedições; as três primeiras encontraram resistência inesperada. A quarta destruiu Canudos em 1897.

A República encontrou brasileiros que praticamente não participavam de suas instituições — e passou a tratá-los como inimigos do regime.

Cronologia e fotografias de Flávio de Barros: Museu da República — Guerra de Canudos.

A Revolta da Chibata

Em 1910, marinheiros rebelaram-se contra castigos físicos, condições degradantes e racismo dentro da Marinha.

A escravidão havia sido abolida havia 22 anos, mas marinheiros, muitos deles negros, ainda podiam ser açoitados.

Liderados por João Cândido, tomaram alguns dos navios mais poderosos da esquadra e apontaram seus canhões para a capital.

O governo prometeu anistia e o fim dos castigos. Depois da rendição, muitos participantes foram presos, expulsos ou perseguidos.

A República aceitou ouvir os marinheiros enquanto eles controlavam encouraçados. Depois que devolveram os navios, a capacidade de escuta diminuiu consideravelmente.

Depoimento de João Cândido: MultiRio — Revolta da Chibata.

O Contestado

Entre Paraná e Santa Catarina, camponeses perderam terras em meio a disputas estaduais, concessões ferroviárias e interesses empresariais.

A ferrovia alterou a região; trabalhadores foram recrutados e depois abandonados. Entre 1912 e 1916, um movimento social e religioso enfrentou forças estaduais e federais.

Mais uma vez, brasileiros mantidos à margem da propriedade e da participação política tornaram-se visíveis quando foram classificados como ameaça.

A República não conseguia incluí-los. Mas sabia mobilizar tropas contra eles.

A modernização criou novos brasileiros

O crescimento urbano e industrial produziu grupos que já não cabiam perfeitamente na velha ordem rural.

Operários organizaram sindicatos e greves. Profissionais liberais e setores urbanos exigiram participação. Jornalistas denunciaram fraudes. Mulheres defenderam o voto. Jovens oficiais criticaram as oligarquias. Industriais queriam políticas diferentes das exigidas pelos grandes exportadores.

A máquina de Campos Sales continuava funcionando. Mas o país ao redor dela estava mudando.

E havia algo perigoso para qualquer sistema fechado: a quantidade de pessoas que desejavam entrar estava aumentando.

Os tenentes voltam à cena

Em 1922, jovens oficiais rebelaram-se no Rio de Janeiro. O episódio mais conhecido foi o dos 18 do Forte de Copacabana.

Em 1924, outra rebelião tomou parte de São Paulo. Depois, grupos revoltosos uniram-se na marcha conhecida como Coluna Prestes.

Durante anos, a coluna percorreu milhares de quilômetros denunciando fraudes, domínio oligárquico, ausência do voto secreto e precariedade educacional.

Os tenentes não possuíam um programa perfeitamente unificado e muitos carregavam concepções autoritárias. Mas identificavam uma doença real: a República proclamava representação popular e bloqueava os mecanismos capazes de torná-la verdadeira.

Quase quatro décadas depois de militares inaugurarem o regime, outra geração militar acusava-o de não cumprir suas próprias promessas.

Síntese histórica: CPDOC/FGV — Tenentismo.

A política que não conseguia perder

O grande problema de um sistema construído para impedir a derrota é que ele também perde a capacidade de se corrigir.

Se a oposição não vence eleições, os governadores controlam bancadas, o Congresso elimina eleitos inconvenientes e o presidente escolhe um sucessor apoiado pela máquina, então as mudanças não acontecem dentro do sistema. Acumulam-se fora dele.

As eleições, os jornais e o Congresso continuavam existindo. Mas a alternância real era limitada.

A República não eliminara completamente a política. Tinha apenas retirado dela a capacidade de surpreender.

Então o café caiu

Em 1929, a crise econômica mundial atingiu violentamente o Brasil. O café era seu principal produto de exportação.

A quebra da Bolsa de Nova York reduziu crédito, comércio e consumo. O Brasil produzia café demais para um mundo que comprava menos. Estoques cresceram, preços caíram e a receita de exportação despencou.

A estrutura econômica que sustentava a principal oligarquia da República começou a balançar. Mas a crise econômica, sozinha, não derrubou o regime.

O golpe final veio de dentro da própria aliança política.

O acordo deixou de funcionar

Washington Luís era paulista e apoiou outro paulista, Júlio Prestes, para sucedê-lo. Minas Gerais rompeu com São Paulo.

Unida ao Rio Grande do Sul e à Paraíba, formou a Aliança Liberal, que lançou Getúlio Vargas para presidente e João Pessoa para vice.

A Aliança não era um movimento popular puro contra uma elite separada. Reunia oligarquias dissidentes, políticos tradicionais, reformistas, setores urbanos e jovens oficiais.

Vargas havia sido deputado, ministro da Fazenda de Washington Luís e presidente do Rio Grande do Sul. Conhecia a República oligárquica porque crescera dentro dela.

A oposição não nasceu quando os excluídos finalmente tomaram o poder. Nasceu quando uma parte dos incluídos deixou de receber sua parte.

A República resistiu às revoltas populares, às greves, aos sertanejos, aos marinheiros e aos jovens oficiais. Mas começou a desabar quando seus próprios donos discordaram sobre quem ficaria com a chave.

A eleição de 1930

A eleição ocorreu em 1º de março. O resultado oficial deu a vitória a Júlio Prestes e Vital Soares com aproximadamente 57,7% dos votos.

A Aliança Liberal denunciou fraude. E havia fraude. Mas a honestidade histórica exige acrescentar que as irregularidades não pertenciam exclusivamente ao governo.

No Rio Grande do Sul, Vargas recebeu cerca de 298 mil votos, enquanto Júlio Prestes obteve apenas 982 — um resultado difícil de interpretar como expressão espontânea de uma disputa livre.

O governo manipulava. A oposição também manipulava onde controlava a máquina. A diferença é que o governo possuía uma máquina maior.

Depois da derrota, parte da Aliança aceitou o resultado. Outra parte começou a conspirar. Faltava um acontecimento capaz de transformar insatisfação em mobilização nacional.

Resultados e controvérsias: CPDOC/FGV — Aliança Liberal.

Um assassinato que não começou como crime nacional

Em 26 de julho de 1930, João Pessoa foi assassinado por João Dantas numa confeitaria do Recife.

Sua morte foi apresentada como crime ligado à disputa nacional. Mas a origem direta estava num conflito pessoal e político na Paraíba: aliados de João Pessoa haviam invadido o escritório de Dantas e divulgado correspondências íntimas encontradas no local.

O crime possuía contexto político, mas não foi simplesmente uma ordem do governo federal para eliminar o candidato derrotado.

Isso não impediu que a morte se transformasse em símbolo. O corpo percorreu cidades, multidões se reuniram e discursos acusaram o governo.

A morte não criou sozinha a revolução. Deu-lhe um mártir. E movimentos crescem mais depressa quando encontram um cadáver capaz de representar todas as suas queixas.

Cronologia do estopim político: Senado Federal — A Revolução de 1930.

A República termina como começou

Getúlio Vargas e sua comitiva durante a Revolução de 1930
Getúlio Vargas e sua comitiva em Itararé durante a Revolução de 1930. Fotografia de Claro Jansson / Wikimedia Commons, domínio público.

Em 3 de outubro de 1930, o movimento armado começou no Rio Grande do Sul e avançou por diferentes regiões.

Antes que Getúlio chegasse ao Rio de Janeiro, os chefes militares da capital depuseram Washington Luís em 24 de outubro. Júlio Prestes, embora oficialmente eleito, não tomou posse.

Uma junta militar assumiu temporariamente e, em 3 de novembro, entregou o poder a Vargas.

A Primeira República começara em 1889 com militares retirando um chefe de Estado. Terminou em 1930 com militares retirando outro.

O país realizara eleições, aprovara uma Constituição, modernizara cidades e construíra instituições. Mas não transformara o voto numa forma confiável de alternância.

A revolução derrubou um sistema excludente. Mas não entregou imediatamente o poder ao eleitor. Entregou-o a um governo provisório chefiado por Getúlio Vargas.

O Congresso seria dissolvido, governadores afastados e interventores nomeados. A autonomia estadual seria reduzida.

A República oligárquica estava morta. No lugar dela surgia um governo que prometia modernizar o Brasil, proteger os trabalhadores e reconstruir a democracia.

Para realizar tudo isso, começaria governando sem eleições.

Durante quarenta anos, a República realizou eleições sem permitir que elas mudassem realmente o poder. Em 1930, finalmente ocorreu uma mudança real de poder. E ela não veio de uma eleição.

O problema mudou de nome

A Revolução de 1930 enfrentou problemas verdadeiros: fraude, concentração oligárquica, ausência de Justiça Eleitoral, exclusão feminina, falta de voto secreto, fragilidade representativa e dependência do café.

Mas a solução criou uma nova pergunta: se a democracia existente era fraudulenta, seria legítimo suspendê-la para construir uma democracia melhor? E quem decidiria quando a construção estaria concluída?

Getúlio assumiu prometendo reorganizar o país. Permaneceria no centro do poder durante quinze anos: chefe de governo provisório, presidente constitucional e ditador. Mais tarde, voltaria como presidente eleito.

Vargas derrubaria a República das oligarquias, criaria leis trabalhistas, fortaleceria a indústria e centralizaria o Estado. Também fecharia o Congresso, censuraria jornais e perseguiria adversários.

A República havia tentado governar sem o povo. Getúlio perceberia que era possível governar falando diretamente em nome dele — mesmo quando ele não pudesse responder.

ATO 3

O HOMEM QUE DEU VOZ AO POVO— E TOMOU A PALAVRA

Como Vargas transformou o trabalhador em protagonista nacional enquanto transformava o Estado em seu próprio palco

No dia 3 de novembro de 1930, Getúlio Vargas chegou ao poder. Não por eleição, sucessão constitucional ou decisão do Congresso.

Chegou depois de uma revolta armada, da deposição de Washington Luís e da entrega do governo por uma junta militar.

Vargas desembarcou no Rio acompanhado por milhares de soldados gaúchos. Alguns amarraram seus cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco.

O gesto representava a vitória dos homens que vinham do Sul contra a elite instalada na capital. Mas também continha uma mensagem menos delicada: a ordem anterior não fora reformada. Havia sido conquistada.

O homem que assumia prometia desmontar a República dos coronéis, moralizar eleições, modernizar o Estado e abrir espaço para os trabalhadores.

Vargas faria parte disso. Criaria instituições que permanecem, conduziria a transformação econômica, daria ao trabalhador urbano posição inédita no discurso nacional e construiria a primeira máquina moderna de comunicação política do Brasil.

O problema é que, quanto mais o Estado aprendia a falar, menos permitia que os outros respondessem.

Um governo provisório sem prazo muito claro

A Revolução de 1930 fora organizada em nome da renovação política. Mas a primeira ação do novo governo foi suspender a política existente.

Em 11 de novembro, o Decreto nº 19.398 concedeu poderes extraordinários: dissolveu o Congresso, as assembleias estaduais e câmaras municipais, afastou governadores e permitiu a nomeação de interventores federais.

A federação de 1891 perdeu autonomia. O chefe do Governo Provisório podia legislar, administrar e reorganizar instituições.

Havia justificativa compreensível: manter as oligarquias estaduais significaria trocar o presidente sem alterar o sistema.

Mas havia uma consequência igualmente clara. Para eliminar os governadores que controlavam a República, Vargas passou a controlar os governadores.

A máquina oligárquica era desmontada. As peças não seriam entregues imediatamente ao povo. Seriam levadas ao governo federal.

Registro do novo arranjo de poder: CPDOC/FGV — Getúlio Vargas.

Vargas assumiu o poder para encerrar uma República na qual os estados eram poderosos demais. A solução foi simples: tornou o presidente poderoso demais.

O Brasil ganha um Estado

A Primeira República não possuía um governo central ausente, mas grande parte do poder real permanecia distribuída entre oligarquias estaduais. Vargas alterou essa relação.

Criou ministérios, conselhos, institutos, órgãos técnicos e mecanismos nacionais de regulação. Ainda em 1930 surgiu o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.

O trabalhador urbano, praticamente invisível na arquitetura política anterior, passava a ocupar lugar oficial dentro do Estado.

Foram ampliadas políticas de regulamentação profissional, previdência, mediação trabalhista, organização sindical e proteção ao trabalho feminino e infantil.

Isso não significa que Vargas tenha inventado sozinho os direitos trabalhistas. Antes de 1930 existiam sindicatos, greves, propostas legislativas e normas de proteção. Trabalhadores pressionavam havia décadas.

A inovação foi incorporar essa demanda ao Estado. O governo apareceu como mediador, regulador, juiz e organizador das partes.

O trabalhador ganhava proteção. O Estado ganhava o trabalhador.

O sindicato autorizado

Em 1931, o governo estabeleceu nova estrutura sindical. Para obter reconhecimento oficial e benefícios, o sindicato precisava cumprir regras do Ministério do Trabalho.

Isso produziu relação dupla. Sindicatos reconhecidos podiam representar trabalhadores e participar das instituições; o governo podia fiscalizar eleições, estatutos, orçamento, dirigentes e orientação política.

A legislação ampliou a presença sindical, mas restringiu sua autonomia.

A voz operária poderia existir. Desde que utilizasse o microfone instalado pelo governo.

Estrutura sindical do período: CPDOC/FGV — Sindicato.

A democracia começou a voltar

Vargas não poderia governar provisoriamente para sempre sem enfrentar resistência.

São Paulo perdera a influência da República Velha e rejeitava interventores. Ao desejo de recuperar poder somou-se uma reivindicação legítima: o país precisava de uma Constituição.

Em 1932, São Paulo iniciou a Revolução Constitucionalista. O movimento reunia antigos grupos oligárquicos, voluntários constitucionalistas e poderosa identidade regional contra o governo central.

A guerra começou em 9 de julho e terminou no início de outubro. São Paulo foi derrotado militarmente, mas a pressão tornou impossível prolongar indefinidamente a situação provisória.

A República voltaria a votar — e tentaria descobrir o resultado sem perguntar antes aos coronéis.

Cronologia do movimento: CPDOC/FGV — biografia de Getúlio Vargas.

A eleição que realmente mudou a eleição

Em 24 de fevereiro de 1932, o governo promulgou um novo Código Eleitoral.

Foram introduzidos o voto secreto, a Justiça Eleitoral, a representação proporcional, o alistamento organizado e a participação feminina.

A eleição de 1933 para a Constituinte tornou-se divisor da história política. Uma instituição especializada assumia organização, fiscalização e reconhecimento dos resultados.

A velha Comissão de Verificação de Poderes perdia o controle. A degola deixava de ser parte normal do processo.

O coronelismo e a desigualdade não desapareceram, e os analfabetos continuavam excluídos. Mas o sistema começava a separar o voto da autoridade direta dos grupos que disputavam o resultado.

As mulheres participaram e puderam candidatar-se. Entre 1.040 candidatos, apenas 19 eram mulheres; somente Carlota Pereira de Queirós foi eleita.

Vargas chegara por uma revolução. Agora conduzia a eleição mais confiável realizada até então. Parecia que a exceção começava a cumprir sua promessa.

Registros e resultados: Tribunal Superior Eleitoral — Eleições de 1933.

Uma Constituição — e um presidente escolhido sem eleição popular

Em 16 de julho de 1934, o Brasil ganhou nova Constituição. O texto incorporou direitos trabalhistas, voto secreto, participação feminina, Justiça Eleitoral, educação como direito e maior presença do Estado na economia.

No dia seguinte, a Assembleia Constituinte elegeu indiretamente Getúlio Vargas para a Presidência. Seu mandato terminaria em 1938, quando deveria ocorrer eleição direta.

A Constituição legitimou o governo. O governo influenciara profundamente a construção da Constituição.

Isso não anulava os avanços. Revelava o método de Vargas: conduzir instituições até que o resultado institucional coincidisse com sua permanência no poder.

Eleição indireta e mandato: CPDOC/FGV — Constituição de 1934 e Vargas.

Getúlio devolveu ao Brasil uma Constituição. E a Constituição, demonstrando boa educação, devolveu Getúlio à Presidência.

Um país espremido entre extremos

A década de 1930 radicalizava o mundo. Fascismo, nazismo, comunismo e crise econômica destruíam governos e certezas.

À direita cresceu a Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado, com uniformes verdes, disciplina paramilitar, nacionalismo e anticomunismo.

À esquerda surgiu a Aliança Nacional Libertadora, frente de comunistas, socialistas, antigos tenentes e opositores do fascismo, imperialismo e latifúndio. Luís Carlos Prestes tornou-se presidente de honra.

As ruas tornaram-se espaço de confronto. E, no centro, Vargas observava.

A polarização ameaçava seu governo, mas oferecia uma oportunidade: quanto maior o medo dos extremos, mais necessário parecia o homem que afirmava poder controlar ambos.

A revolta que deu ao governo o inimigo de que precisava

Em novembro de 1935 ocorreram levantes militares em Natal, Recife e Rio, organizados por comunistas e integrantes da ANL.

A rebelião foi real. Houve tentativa de tomar unidades e derrubar o poder constituído. Mas era limitada, mal coordenada e rapidamente derrotada.

Sua importância veio também do que permitiu ao governo fazer depois: prisões, medidas de exceção, suspensão de direitos e perseguição a adversários não diretamente envolvidos.

O comunismo tornou-se justificativa universal para concentrar poder. A Constituição permanecia formalmente em vigor, mas o espaço político garantido por ela encolhia.

A mulher entregue a Hitler

Entre os presos estava Luís Carlos Prestes. Também foi capturada sua companheira, Olga Benário, comunista alemã de origem judaica e grávida.

Em 1936, o governo brasileiro autorizou sua deportação para a Alemanha nazista. O caráter repressivo e antissemita do regime já era conhecido.

Olga teve a filha na prisão e foi assassinada em 1942 no centro de extermínio de Bernburg.

A deportação ocorreu antes da instalação formal do Estado Novo. A violência autoritária não começou subitamente em novembro de 1937; o golpe institucionalizou práticas que já cresciam.

Documentos e estudos: Arquivo Nacional — Estado Novo, arquivos e histórias.

A eleição que estava chegando perto demais

A Constituição determinava eleições presidenciais para janeiro de 1938. Armando de Sales Oliveira representava a oposição constitucional, José Américo aproximava-se do governo e Plínio Salgado liderava os integralistas.

Vargas afirmava que entregaria o poder. Enquanto o país discutia o próximo presidente, grupos militares e civis preparavam uma alternativa que não apareceria na cédula.

Em setembro de 1937, o governo divulgou um suposto plano comunista para tomar o Brasil por assassinatos, incêndios e sequestros: o Plano Cohen.

Como o país enfrentara uma rebelião real em 1935, a ameaça parecia plausível. O Congresso aprovou novas medidas de emergência.

Mas o plano era falso. Fora produzido pelo capitão integralista Olímpio Mourão Filho como exercício ou simulação e apresentado ao país como conspiração verdadeira e iminente.

A falsificação não foi apenas erro de inteligência. Foi usada para preparar a suspensão da democracia.

O documento forjado e seu uso político: Senado Federal — o Plano Cohen e o golpe.

Em 1935, uma revolta comunista verdadeira fracassou. Em 1937, uma revolta comunista falsa funcionou perfeitamente.

A democracia foi fechada para sua própria proteção

Na manhã de 10 de novembro de 1937, tropas cercaram o Congresso. Vargas anunciou nova Constituição. A eleição foi cancelada, partidos extintos e o Legislativo fechado.

Começava o Estado Novo. O nome sugeria reconstrução. O regime era uma ditadura.

A Carta de 1937 concentrava enorme poder no Executivo. Previa instituições e um plebiscito que jamais foram implementados durante o regime.

Vargas afirmava que a democracia liberal não podia defender o país dos extremismos. Para salvar a nação, era necessário suspender a competição política.

A República oligárquica falsificara eleições para impedir mudanças. Vargas foi além: eliminou as eleições que poderiam mudar o governo.

Golpe e Constituição outorgada: Senado Federal — história das Constituições.

O governo que entrou no rádio

Peça de propaganda do Estado Novo mostrando Getúlio Vargas com crianças
Propaganda do Estado Novo mostrando Getúlio Vargas com crianças, cerca de 1938. Autor desconhecido / Wikimedia Commons, domínio público.

O Estado Novo entendeu que o poder não dependia apenas de impedir a escolha. Também dependia de ensinar ao povo como enxergar o governante.

Em 1939, o Departamento de Imprensa e Propaganda passou a censurar jornais, revistas, teatro, cinema e rádio; produzir conteúdo favorável; organizar cerimônias e supervisionar a imagem do presidente.

Vargas aparecia como o homem que trabalhava enquanto políticos discutiam, o mediador entre patrões e empregados, o condutor da indústria e o pai dos pobres.

Não era propaganda completamente vazia. O governo realizava obras e ampliava direitos. Essa mistura tornava a comunicação mais poderosa.

A melhor propaganda não inventa tudo. Seleciona cuidadosamente as verdades que o público terá permissão para enxergar.

Atuação editorial e propagandística: Revista Acervo — o DIP.

Pela primeira vez, o governo brasileiro não queria apenas controlar o que o cidadão fazia. Queria participar da escolha do que ele pensava sobre o governo.

Direitos reais dentro de uma ditadura real

Em 1º de maio de 1943, Vargas assinou a Consolidação das Leis do Trabalho.

A CLT reuniu normas sobre jornada, férias, descanso, contratos, proteção salarial, condições de trabalho, Justiça do Trabalho e relações sindicais.

Seu impacto foi enorme. A relação urbana de trabalho deixou de depender apenas da negociação desigual entre patrão e empregado.

Seria desonesto afirmar que esses direitos eram falsos porque foram consolidados numa ditadura. E igualmente desonesto dizer que Vargas os ofereceu por pura generosidade.

A legislação resultou de décadas de luta operária, experiências anteriores, pressão social, industrialização, modelos estrangeiros e estratégia de controle sindical.

Os direitos eram reais. O controle também. A CLT concentrou-se no trabalhador urbano formal, enquanto grande parte da população rural ficou fora. Sindicatos eram reconhecidos, mas submetidos ao Estado. Greves eram proibidas.

O trabalhador podia pedir proteção ao governo. Não podia organizar livremente qualquer enfrentamento contra ele.

Impacto e permanência da CLT: Senado Federal — 80 anos da CLT.

O trabalhador ganhou direitos para se defender do patrão. Mas não ganhou a mesma liberdade para se defender do Estado que concedia esses direitos.

O presidente fala ao trabalhador

Vargas transformou o Primeiro de Maio, nascido da luta internacional dos trabalhadores, numa cerimônia oficial.

Multidões reuniam-se para ouvir anúncios trabalhistas e o chamado aos trabalhadores do Brasil. Pela rádio, o presidente tentava falar diretamente com cada indivíduo.

Isso criou vínculo político duradouro. Muitos passaram a enxergar Vargas como autor pessoal das garantias sociais, interpretação cultivada pelo governo.

Mas a adesão não pode ser reduzida a manipulação. Para quem vivia sem proteção contratual, férias ou mediação, o novo Estado produzia mudança concreta.

Vargas soube transformar legislação em memória afetiva. E memória afetiva em poder.

O país aprende a fabricar aço

O projeto de Vargas também era econômico e nacional. Sem indústria de base, o Brasil continuava dependente da importação de máquinas e materiais.

Em 1941 nasceu a Companhia Siderúrgica Nacional, encarregada da usina de Volta Redonda. Em 1942 foi criada a Companhia Vale do Rio Doce.

O governo fortaleceu planejamento, energia, infraestrutura, administração pública e integração territorial.

Um país capaz de produzir aço poderia fabricar trilhos, máquinas, pontes e armamentos. O aço não era apenas mercadoria. Era matéria-prima da soberania industrial.

Vargas não industrializou o Brasil sozinho. A indústria já crescia; empresários, trabalhadores, capital estrangeiro e substituição de importações foram fundamentais. Mas seu governo alterou a escala e o papel do Estado.

A República dos fazendeiros começava a transformar-se num país de fábricas.

CSN, Vale e intervenção econômica: CPDOC/FGV — Getúlio Vargas.

A ditadura que negociava com ditaduras e democracias

Quando a Segunda Guerra começou, o Brasil vivia sob regime autoritário. Dentro do governo havia simpatizantes do Eixo e defensores da aproximação com os Estados Unidos.

Vargas negociou. O Brasil possuía posição estratégica no Atlântico, bases aéreas e matérias-primas; os Estados Unidos ofereciam financiamento, equipamentos e apoio industrial.

Depois que submarinos do Eixo afundaram navios mercantes brasileiros e causaram centenas de mortes, a pressão popular cresceu. Em agosto de 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.

A Força Expedicionária Brasileira foi enviada à Itália para combater regimes autoritários. Em casa, o Congresso permanecia fechado, partidos proibidos e imprensa censurada.

O Brasil combatia ditaduras no exterior mantendo uma ditadura no território nacional.

Brasil e a guerra: Arquivo Nacional — Força Expedicionária Brasileira.

O soldado brasileiro foi enviado à Europa para defender a democracia. Naturalmente, esperava-se que ele não perguntasse onde ela estava quando voltasse para casa.

A guerra volta para dentro do Brasil

A partir de 1943, a oposição ganhou força. O Manifesto dos Mineiros exigiu redemocratização; advogados, intelectuais, empresários, antigos aliados e militares questionaram Vargas.

Se o fascismo era ameaça mundial e brasileiros morriam para derrotá-lo, como justificar governo sem eleições, partidos e Parlamento?

Em 1945, Vargas anunciou eleições, autorizou partidos, concedeu anistia e permitiu o retorno de exilados.

Surgiram PSD, ligado a interventores e elites administrativas; PTB, ligado ao trabalhismo; UDN, formada por opositores; e PCB, legalizado por breve período.

Vargas não apenas permitia a abertura. Tentava organizar sua sobrevivência dentro dela. O ditador preparava-se para deixar o regime; o político preparava-se para permanecer na História.

“Queremos Getúlio”

Em 1945 surgiu o queremismo, com o lema Queremos Getúlio. Trabalhadores e organizações trabalhistas defendiam sua permanência durante a constitucionalização.

Parte dos comunistas, inclusive Luís Carlos Prestes — cuja companheira fora entregue pelo governo aos nazistas — apoiou uma transição com Getúlio.

O movimento possuía elementos de mobilização governamental, mas não era simples teatro. Após quinze anos de políticas sociais e comunicação direta, Vargas tinha apoio popular verdadeiro.

Isso assustou elites e militares. Haviam tolerado o ditador enquanto controlava trabalhadores. Começaram a temê-lo quando perceberam que os trabalhadores poderiam ajudá-lo a continuar.

Os militares retiram o homem que haviam colocado

Em outubro de 1945, Vargas nomeou seu irmão Benjamin para a chefia de polícia do Distrito Federal. A decisão reforçou suspeitas de continuísmo.

Em 29 de outubro, chefes militares depuseram Getúlio. Não houve resistência armada. Ele deixou o Catete e voltou a São Borja.

Quinze anos depois de chegar apoiado por militares, foi retirado por militares. Mais uma vez, as Forças Armadas decidiam quando um governo começava e terminava.

Mas Vargas não foi destruído politicamente. Nas eleições de dezembro, foi escolhido senador por dois estados e deputado por vários.

Mesmo afastado, possuía algo que nenhum golpe poderia dissolver: eleitores.

O paradoxo Vargas

É possível construir duas biografias aparentemente incompatíveis.

Numa, Vargas desmontou a ordem oligárquica, criou Justiça Eleitoral, abriu o voto às mulheres, estruturou o Estado, ampliou direitos e fortaleceu a indústria.

Noutra, chegou por movimento armado, dissolveu o Congresso, subordinou sindicatos, perseguiu opositores, deportou Olga, usou documento falso, cancelou eleições, fechou partidos e censurou a imprensa.

As duas são verdadeiras. O erro começa quando uma é escolhida para apagar a outra.

Seu poder nasceu justamente da combinação. Construiu um Estado capaz de proteger — e demonstrou que o mesmo Estado podia vigiar.

Deu direitos aos trabalhadores e limitou sua organização. Modernizou instituições e fechou aquelas que podiam retirá-lo. Falou em nome do povo e reduziu os lugares em que o povo poderia falar por conta própria.

A República Velha mantinha a população distante. Vargas aproximou o Estado das massas. Mas a aproximação também ocorreu pela propaganda, tutela e centralização.

O povo finalmente entrava na política nacional. Só que a porta continuava controlada pelo presidente.

Getúlio Vargas não resolveu a ausência do povo na República. Resolveu a ausência da República na vida do povo. E depois colocou seu próprio retrato na entrada.

A democracia volta carregando Getúlio na bagagem

Em 1945, o Brasil começava nova experiência democrática: Constituição, Congresso, partidos, eleições e imprensa mais livre.

Mas não recomeçaria do zero. Trabalhadores urbanos eram força nacional. O trabalhismo sobreviveria no PTB, elites administrativas no PSD e adversários de Vargas na UDN. Militares continuariam enxergando-se como garantidores da ordem.

O próprio Getúlio aguardaria em São Borja. Em 1950, cinco anos depois de ser derrubado como ditador, retornaria à Presidência pelo voto popular.

O homem que chegara por uma revolução já não precisava de soldados para entrar no palácio. Agora possuía eleitores.

Mas nacionalismo, inflação, capital estrangeiro, imprensa oposicionista, conspiração militar e mobilização popular voltariam com ele.

A República ganhara uma nova chance. O problema é que todos os participantes ainda se lembravam de como interrompê-la.

ATO 4

A DEMOCRACIA QUE GOVERNAVASOB AMEAÇA

O Brasil devolveu o poder ao eleitor — mas não ensinou todos os derrotados a respeitar o resultado

O Brasil devolveu o poder ao eleitor.

Mas esqueceu de avisar aos quartéis, aos jornais, aos partidos e aos próprios presidentes que o resultado das urnas deveria ser respeitado mesmo quando desagradasse aos derrotados.

A ditadura havia acabado.

O hábito de ameaçar a democracia, não.

Uma Constituição sobre os escombros

Gustavo Capanema assina a Constituição brasileira de 1946
O deputado Gustavo Capanema assina a Constituição de 1946, no Rio de Janeiro. Arquivo GC/CPDOC; fotógrafo desconhecido / Wikimedia Commons, domínio público.

Em 1945, Getúlio Vargas foi retirado do poder pelos mesmos militares que o haviam ajudado a chegar até ele quinze anos antes.

Não houve uma revolução popular derrubando o Estado Novo. Houve uma operação conduzida de cima.

Os generais afastaram o ditador, entregaram provisoriamente a Presidência ao presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, e organizaram eleições.

Parecia um novo começo.

Em 2 de dezembro de 1945, o general Eurico Gaspar Dutra foi eleito presidente com aproximadamente 55% dos votos. Seu partido, o PSD, conquistou ampla maioria na Assembleia Constituinte: 151 dos 286 deputados e 26 dos 42 senadores.

Era uma vitória eleitoral. Mas também era uma demonstração de como o antigo regime continuava vivendo dentro do novo.

Dutra havia sido ministro da Guerra de Vargas. O PSD reunia principalmente interventores, administradores e grupos políticos organizados durante o Estado Novo. O PTB, outra criação daquele período, representava a base trabalhista ligada a Getúlio.

A ditadura havia terminado. Seus herdeiros haviam vencido a eleição.

Em setembro de 1946, o país promulgou uma nova Constituição. Ela restaurou o Congresso, recriou o cargo de vice-presidente, recuperou liberdades civis, estabeleceu eleições diretas e tentou reconstruir as instituições demolidas em 1937.

Depois de anos de censura e autoridade concentrada, o Brasil voltava a ser uma democracia constitucional.

Só havia um pequeno problema. A democracia brasileira ainda funcionava com um botão de emergência instalado ao lado da urna. E muita gente mantinha o dedo sobre ele.

Dados eleitorais e partidários: CPDOC/FGV — Partido Social Democrático.

A nova ordem constitucional: Senado Federal — Constituição de 1946.

O Brasil de 1946 tentou construir uma democracia com políticos, partidos, militares e estruturas formados durante uma ditadura. Era como reformar a casa sem retirar a fiação que já havia provocado o incêndio.

Dutra: a democracia com lista de convidados

O governo Dutra aproximou o Brasil dos Estados Unidos no início da Guerra Fria.

Isso significava que cada greve, sindicato, manifestação ou eleição podia ser examinado como parte de uma guerra internacional entre Washington e Moscou.

O Partido Comunista Brasileiro havia conseguido registro legal em 1945. Luís Carlos Prestes foi eleito senador com 157.397 votos, e o partido formou bancadas parlamentares, conquistou prefeituras e obteve forte votação nos grandes centros urbanos.

A legalidade durou pouco.

Em 7 de maio de 1947, por três votos contra dois, o Tribunal Superior Eleitoral cancelou o registro do PCB. No ano seguinte, os mandatos de seus representantes foram cassados.

O partido havia sido autorizado a participar. Os eleitores haviam votado. Os candidatos haviam sido eleitos. Depois, o sistema decidiu que aqueles votos não deveriam continuar valendo.

Não é necessário transformar o PCB da época em símbolo perfeito da democracia. O partido mantinha profunda ligação ideológica com a União Soviética, e declarações de Prestes sobre um possível conflito internacional foram exploradas pelos adversários.

Mas democracia não existe para proteger apenas partidos considerados agradáveis, moderados ou inofensivos. Existe para estabelecer como os conflitos serão resolvidos sem que um dos lados simplesmente retire o outro do tabuleiro.

O primeiro governo da nova democracia já começava ensinando uma lição perigosa: o voto seria respeitado — desde que produzisse o resultado considerado aceitável.

Registro da cassação: CPDOC/FGV — Luís Carlos Prestes.

Getúlio volta pela porta que antes fechou

Getúlio Vargas havia sido afastado. Mas não havia desaparecido.

Recolhido em sua fazenda em São Borja, continuava sendo o centro gravitacional da política brasileira. Para alguns, era o ditador deposto. Para outros, o homem que havia criado direitos trabalhistas, organizado o Estado e dado visibilidade política aos trabalhadores urbanos.

Em 1950, ele voltou. Desta vez, não com tropas. Com votos.

Getúlio foi eleito presidente com cerca de 48,7% dos votos válidos. Seu adversário Eduardo Gomes recebeu aproximadamente 29,7%.

A UDN tentou contestar o resultado argumentando que Vargas não havia alcançado maioria absoluta. A Constituição, porém, não exigia maioria absoluta.

Getúlio venceu dentro das regras existentes. A democracia brasileira enfrentava seu primeiro grande teste: permitir que um homem detestado por parte das elites políticas e militares assumisse a Presidência porque havia recebido mais votos.

Ele tomou posse em 31 de janeiro de 1951. O antigo ditador voltava como presidente constitucional. Esse paradoxo não era um detalhe da história. Era a própria história.

Um presidente cercado

O segundo governo Vargas foi muito diferente do primeiro. Agora havia Congresso, oposição organizada, imprensa atuante, eleições e limites institucionais. Getúlio continuava habilidoso, mas já não podia governar por decreto como fizera no Estado Novo.

Tentou recuperar sua antiga coalizão. De um lado, buscava conciliar industriais, militares e setores conservadores. Do outro, ampliava sua ligação com o trabalhismo, os sindicatos e o nacionalismo econômico.

Em 1953, criou a Petrobras depois de uma intensa campanha política em defesa do monopólio estatal do petróleo.

Em 1954, autorizou um reajuste de 100% no salário mínimo, defendido por seu ministro do Trabalho, João Goulart.

Para os trabalhadores, aquilo significava recuperar parte do poder de compra corroído pela inflação. Para empresários, setores militares e opositores, era a prova de que Vargas estava mobilizando as massas contra a ordem estabelecida.

Jango foi acusado de estimular uma espécie de república sindicalista e acabou afastado do ministério. Mas seu nome já estava ligado a algo que não abandonaria mais: a ideia de que ampliar salário, organização sindical ou participação popular representava uma ameaça política.

Enquanto isso, Carlos Lacerda atacava o governo diariamente pelo jornal Tribuna da Imprensa. Escrevia com agressividade, mobilizava setores da classe média, dialogava com militares e defendia abertamente a saída de Vargas.

A crise deixou de ser apenas administrativa. Transformou-se numa disputa sobre o direito do presidente de permanecer presidente.

O tiro que não matou Lacerda

Na madrugada de 5 de agosto de 1954, Carlos Lacerda retornava para casa, na rua Tonelero, em Copacabana.

Um homem armado apareceu. Lacerda foi ferido no pé. O major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que o acompanhava, foi morto.

A investigação chegou até integrantes da guarda pessoal do presidente. Gregório Fortunato, chefe da guarda de Vargas, foi apontado como mandante do atentado.

Não há prova documental de que Getúlio tenha ordenado o crime. Mas politicamente isso já não importava.

O atentado havia ocorrido dentro da estrutura informal que cercava o Palácio do Catete. A oposição encontrou o que procurava: um cadáver, uma conspiração e uma linha investigativa que chegava à porta do presidente.

A Aeronáutica conduziu uma investigação própria na Base Aérea do Galeão. O episódio ficou conhecido como República do Galeão.

Ministros militares exigiram a renúncia. Generais discutiram o afastamento. A imprensa ampliou o cerco. Getúlio percebia que sua autoridade estava desaparecendo.

Na madrugada de 24 de agosto, reuniu-se pela última vez com seus ministros. Aceitou licenciar-se, desde que a ordem constitucional fosse mantida. Mas os militares não queriam uma licença negociada. Queriam sua saída definitiva.

Poucas horas depois, em seu quarto no Palácio do Catete, Getúlio Vargas disparou contra o próprio peito.

Ao lado do corpo, deixou uma carta. Nela, transformou sua derrota política em acusação histórica: ‘Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.’

A Carta-Testamento foi transmitida pelo rádio. Multidões saíram às ruas, atacaram jornais oposicionistas e protestaram contra aqueles identificados como responsáveis pela queda do presidente.

A oposição havia conseguido retirar Vargas do caminho. Mas não da maneira que esperava. Morto, Getúlio se tornou politicamente maior do que vivo.

O atentado e a crise: Senado Federal — agosto de 1954.

A reação popular: Senado Federal — o retorno e a morte de Vargas.

O suicídio interrompeu uma operação política já em andamento. Os grupos que exigiam a saída de Vargas conquistaram o Palácio — e perderam as ruas.

A eleição que quase não valeu

Depois da morte de Vargas, o vice-presidente Café Filho assumiu. E aqui aparece uma característica hoje estranha, mas decisiva naquele período: presidente e vice eram eleitos separadamente.

Em 1955, Juscelino Kubitschek venceu a eleição presidencial pelo PSD. João Goulart foi eleito vice-presidente pelo PTB.

JK recebeu pouco mais de um terço dos votos. Não era uma vitória esmagadora, mas era uma vitória legal.

Outra vez, a UDN questionou o resultado. Outra vez, alegou-se que o presidente eleito não possuía maioria absoluta. Outra vez, a Constituição não exigia isso.

Carlos Lacerda resumiu o espírito de parte da oposição numa formulação que atravessaria a época: Juscelino não deveria ser candidato; se candidato, não deveria ser eleito; se eleito, não deveria tomar posse.

O problema não era vencer JK nas urnas. Era impedir que a vitória dele produzisse uma Presidência.

Em novembro de 1955, Café Filho afastou-se por motivos de saúde. Carlos Luz, presidente da Câmara, assumiu interinamente. Setores militares e políticos articulavam uma saída para impedir a posse dos eleitos.

Foi então que o general Henrique Teixeira Lott fez algo que parece uma contradição em termos: mobilizou tropas e afastou um presidente para garantir o cumprimento do resultado eleitoral.

Na madrugada de 11 de novembro, tanques ocuparam pontos estratégicos do Rio de Janeiro. Carlos Luz foi deposto. Nereu Ramos assumiu a Presidência, e o Congresso confirmou o impedimento por 228 votos contra 81.

O movimento ficou conhecido como contragolpe preventivo ou Movimento de 11 de Novembro. O nome muda conforme a interpretação. O fato permanece: foi necessária uma intervenção militar para impedir outra intervenção militar.

A democracia brasileira estava sendo protegida por métodos que mostravam exatamente como ela era frágil.

Cronologia e resultado parlamentar: FGV — Movimento de 11 de Novembro.

Cinquenta anos em cinco — e a conta depois

Juscelino Kubitschek tomou posse em 31 de janeiro de 1956. Seu lema era ‘cinquenta anos em cinco’.

JK pretendia acelerar a industrialização, ampliar a infraestrutura, produzir energia, construir estradas, atrair empresas estrangeiras e transferir a capital para o interior do país.

Seu Plano de Metas estabeleceu prioridades em energia, transporte, alimentação, indústria de base e educação. A construção de Brasília tornou-se a meta-síntese.

Uma cidade inteira erguida no Planalto Central funcionaria como prova material de que o Brasil poderia decidir seu futuro — e construí-lo em concreto.

O país passou a fabricar mais automóveis, caminhões, máquinas e eletrodomésticos. Estradas avançaram. A produção industrial cresceu. Uma nova classe média urbana começou a consumir símbolos de modernidade.

O Brasil parecia finalmente ter encontrado movimento. Mas movimento não é a mesma coisa que direção.

O crescimento foi acompanhado por inflação, aumento da dívida externa, desequilíbrios regionais e maior dependência da importação de tecnologia e equipamentos.

As rodovias integravam o território, mas também favoreciam um modelo dependente do petróleo e do automóvel. Brasília representava futuro. E também custava muito dinheiro.

JK não criou todos esses problemas, tampouco seu governo pode ser reduzido a uma aventura irresponsável. A transformação industrial foi real.

Mas o país cresceu mais rápido do que conseguiu resolver suas contradições sociais. O Brasil ficou moderno antes de ficar menos desigual. E a conta chegou para o governo seguinte.

A vassoura

Em 1960, o eleitorado escolheu Jânio Quadros.

Jânio construiu sua imagem como um homem estranho ao sistema, moralizador, severo e imprevisível. Usava roupas desalinhadas, comia sanduíches durante compromissos públicos e carregava caspa nos ombros como se até a higiene pessoal fosse um luxo suspeito da elite.

Sua campanha adotou uma vassoura como símbolo. Ela varreria a corrupção.

O candidato parecia frágil, excêntrico e quase desajeitado. A construção era cuidadosamente política.

Venceu com uma votação extraordinária para a época. Mas João Goulart, concorrendo separadamente, foi novamente eleito vice-presidente.

O resultado produziu uma chapa improvável: um presidente apoiado pela UDN e um vice ligado ao trabalhismo de Vargas.

Era como colocar dois projetos políticos rivais dentro do mesmo carro e esperar que discutissem o destino apenas depois de pegar a estrada.

Jânio assumiu em janeiro de 1961. Encontrou inflação, dívida e dificuldades cambiais. Adotou medidas econômicas impopulares e procurou reorganizar as finanças.

Ao mesmo tempo, lançou uma Política Externa Independente. O Brasil manteria relações com países de diferentes blocos, recusando um alinhamento automático com os Estados Unidos.

Em plena Guerra Fria, essa autonomia produzia desconfiança. A desconfiança explodiu quando Jânio condecorou Ernesto ‘Che’ Guevara com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

A medida não transformava o Brasil num país comunista, mas ofereceu aos adversários uma imagem perfeita.

Carlos Lacerda, agora governador da Guanabara, intensificou os ataques. A UDN, que havia apoiado Jânio, começou a se afastar. O presidente parecia cada vez mais isolado.

Então enviou João Goulart para uma missão diplomática na China comunista. E esperou o dia 25 de agosto.

As forças terríveis

Na manhã de 25 de agosto de 1961, sete meses depois de assumir, Jânio Quadros enviou sua renúncia ao Congresso.

A carta era curta. Nela, afirmava que ‘forças terríveis’ haviam se levantado contra ele. Não explicou quais eram. Não apresentou provas. Não pediu investigação. Apenas renunciou.

Durante décadas, discutiu-se se Jânio realmente desistiu ou se tentou executar uma manobra.

A hipótese sustentada por muitos historiadores é que ele esperava que o Congresso, os militares e a população recusassem sua renúncia.

O vice estava na China. Parte dos comandantes militares rejeitava João Goulart. Diante da possibilidade de Jango assumir, Jânio talvez calculasse que o país exigiria sua permanência — agora com poderes ampliados.

A data escolhida reforça essa interpretação. A renúncia aconteceu exatamente um dia depois do sétimo aniversário da morte de Getúlio Vargas. Jânio poderia esperar uma mobilização popular semelhante à de 1954.

Mas havia uma diferença fundamental. Getúlio deixou uma história política, uma base trabalhista organizada e uma carta capaz de converter sua morte numa denúncia. Jânio deixou um bilhete enigmático e pegou um avião.

O Congresso aceitou a renúncia no mesmo dia. Não houve multidão exigindo sua volta. Não houve movimento militar para restaurá-lo. Não houve aclamação.

A vassoura saiu do Palácio sem conseguir levar o presidente de volta.

Se foi uma manobra, fracassou em poucas horas. Mas o fracasso de Jânio abriu um problema muito maior.

Pela Constituição, o vice-presidente deveria assumir. O nome dele era João Belchior Marques Goulart.

Jango estava do outro lado do mundo. E antes mesmo de retornar ao Brasil, três ministros militares anunciaram que não aceitariam sua posse.

Documentos e interpretação da renúncia: Senado Federal — a renúncia de Jânio.

O presidente renunciou. A Constituição determinava que o vice assumisse. Os militares responderam que não. A República não estava diante de uma crise inesperada. Estava reencontrando o problema que nunca resolvera.

A Constituição vira uma pergunta

A legalidade dizia que João Goulart era o novo presidente.

Parte das Forças Armadas dizia que ele jamais pisaria no Palácio do Planalto.

No Rio Grande do Sul, um governador mandaria instalar metralhadoras no teto do palácio, requisitaria emissoras de rádio e convocaria o país a resistir.

Seu nome era Leonel Brizola.

A República brasileira estava prestes a descobrir se uma Constituição era uma lei — ou apenas uma sugestão entregue aos quartéis.

ATO 5

O PRESIDENTE QUENÃO PODIA GOVERNAR

Jango chegou à Presidência pela Constituição — e encontrou um país em que cada lado já tratava o outro como inimigo existencial

João Goulart ainda nem havia chegado ao Brasil.

Mas seus adversários já haviam decidido que ele não poderia governá-lo.

Pela Constituição, não existia dúvida: com a renúncia de Jânio Quadros, o vice-presidente deveria assumir.

Politicamente, porém, a regra parecia intolerável.

Jango era herdeiro do trabalhismo de Vargas, mantinha diálogo com sindicatos, defendia maior participação do Estado na economia e acabava de visitar a China comunista.

Em plena Guerra Fria, isso bastava para que fosse descrito não como adversário político, mas como ameaça existencial.

O Brasil chegava a uma situação curiosa: a Constituição dizia quem era o presidente. Os ministros militares discutiam se obedeceriam.

O vice que não podia voltar

Quando Jânio renunciou, em 25 de agosto de 1961, João Goulart estava em missão oficial no exterior. Passara pela União Soviética e encontrava-se na China.

Os ministros militares — Odílio Denis, da Guerra; Sílvio Heck, da Marinha; e Gabriel Grün Moss, da Aeronáutica — vetaram sua posse.

A justificativa era política. Jango seria próximo demais dos sindicatos, tolerante com comunistas e perigoso para a ordem.

Não havia condenação judicial. Não havia processo constitucional de impedimento. Não havia comprovação de que preparasse uma revolução.

Havia uma avaliação feita por comandantes militares sobre quem poderia ou não exercer um mandato conquistado nas urnas.

O presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, assumiu provisoriamente. Aparentemente, o país aguardaria uma solução negociada.

No Rio Grande do Sul, Leonel Brizola não estava interessado em aguardar.

Um governador, um microfone e metralhadoras no telhado

Leonel Brizola fala na Cadeia da Legalidade em 1961
Leonel Brizola fala na Cadeia da Legalidade, no porão do Palácio Piratini, em 27 de agosto de 1961. Museu da Comunicação do Rio Grande do Sul / Wikimedia Commons, domínio público.

Brizola era governador do Rio Grande do Sul, cunhado de Jango e uma das figuras mais explosivas do trabalhismo brasileiro.

Diante da tentativa de impedir a posse, requisitou a Rádio Guaíba e instalou seus transmissores no Palácio Piratini. A partir dali, começou a formar uma rede de emissoras conhecida como Cadeia da Legalidade.

Sua mensagem não era sofisticada: a Constituição deveria ser cumprida.

Pelo rádio, Brizola convocava a população, denunciava o golpe em andamento e pedia que militares legalistas resistissem.

Milhares de pessoas foram às ruas. Voluntários se apresentaram. Armas começaram a ser distribuídas. Barricadas foram preparadas. Metralhadoras foram instaladas na defesa do palácio.

A Aeronáutica chegou a discutir o bombardeio das instalações de onde Brizola transmitia. O governador respondeu que permaneceria no prédio com sua família.

Não era teatro. O Brasil esteve próximo de uma guerra civil.

A situação mudou quando o general José Machado Lopes, comandante do III Exército, sediado no Sul, recusou a ordem dos ministros militares e aderiu à legalidade.

Agora Brizola não tinha apenas uma estação de rádio e uma multidão. Tinha parte do Exército.

A tentativa de impedir Jango poderia dividir as Forças Armadas e transformar a sucessão presidencial numa guerra.

A Campanha da Legalidade obrigou os golpistas a recuar. Mas o recuo veio acompanhado de uma condição.

Jango poderia assumir. Desde que a Presidência não tivesse os poderes de uma Presidência.

Documentos e reconstrução da resistência: Senado Federal — Brizola e a Legalidade.

Em 1961, a democracia brasileira foi salva por uma combinação pouco convencional: rádio, mobilização popular, tropas legalistas e a ameaça concreta de que um palácio estadual não se renderia em silêncio.

O acordo que cumpriu a Constituição alterando a Constituição

Enquanto Jango retornava lentamente ao Brasil, o Congresso aprovou uma solução de emergência.

Em 2 de setembro de 1961, a Emenda Constitucional nº 4 transformou o Brasil numa república parlamentarista.

O presidente continuaria sendo chefe de Estado. Mas grande parte do poder executivo passaria ao primeiro-ministro e ao Conselho de Ministros, dependentes da aprovação do Congresso.

Tancredo Neves tornou-se primeiro-ministro. Jango tomou posse em 7 de setembro.

A ordem constitucional fora formalmente preservada. Mas as regras foram modificadas para reduzir os poderes do sucessor legal antes de permitir que ele assumisse.

O parlamentarismo não nasceu de uma reflexão nacional sobre o melhor sistema de governo. Nasceu de uma crise militar.

Era uma ponte improvisada entre dois grupos que não confiavam um no outro.

Brizola rejeitou o acordo. Para ele, aceitar uma Presidência mutilada significava recompensar os responsáveis pela tentativa de golpe.

Jango aceitou. Talvez porque fosse a única forma de evitar confronto armado. Talvez porque acreditasse que recuperaria os poderes mais tarde. Provavelmente pelos dois motivos.

Um presidente que não controlava o governo

O parlamentarismo brasileiro durou apenas um ano e quatro meses.

Nesse período, o país teve três primeiros-ministros: Tancredo Neves, Brochado da Rocha e Hermes Lima.

Os gabinetes dependiam de coalizões instáveis no Congresso. Jango ocupava a Presidência, mas não controlava plenamente a política econômica, a composição ministerial ou a administração federal.

O governo precisava responder à inflação, às greves, à desigualdade rural, à pressão sindical e à radicalização política. Ao mesmo tempo, funcionava por meio de um sistema criado às pressas.

O Executivo parecia fraco. Os gabinetes duravam pouco. O Congresso bloqueava medidas.

Jango trabalhou para antecipar a consulta que decidiria se o parlamentarismo continuaria. Prevista para 1965, ela foi realizada em 6 de janeiro de 1963.

O eleitorado respondeu de forma devastadora: 9.457.448 votos contra a manutenção do parlamentarismo e 2.073.582 a favor. Aproximadamente 83% dos votos válidos devolveram ao presidente os poderes da Constituição de 1946.

Jango finalmente poderia governar. Agora precisava resolver, em pouco mais de dois anos, problemas acumulados durante décadas.

Resultado oficial da consulta: Tribunal Superior Eleitoral — Referendo de 1963.

O Plano Trienal: crescer, reformar e não deixar a moeda derreter

O Brasil que Jango recebeu não estava economicamente estável.

O crescimento acelerado do período JK deixara uma estrutura industrial maior, mas também inflação, endividamento, desequilíbrio externo e pressão sobre as contas públicas.

O país precisava continuar crescendo, controlar a inflação, preservar salários, renegociar dívidas e realizar reformas sociais.

O economista Celso Furtado coordenou a elaboração do Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social.

O plano pretendia reduzir progressivamente a inflação sem provocar recessão brutal, controlar gastos públicos, reorganizar o crédito, melhorar a arrecadação, renegociar a dívida e manter investimentos.

Não era um programa comunista. Também não era uma simples política de austeridade conservadora. Era uma tentativa de estabilizar a economia para criar condições às reformas estruturais.

O problema estava na execução. Para conter a inflação, o governo precisava limitar despesas, crédito e reajustes salariais. Mas sua principal base estava entre trabalhadores cujos salários eram corroídos pela própria inflação.

Sindicatos exigiam reposição. A esquerda acusava o plano de fazer os trabalhadores pagarem pela crise. Empresários desconfiavam do governo. Credores externos exigiam garantias. O Congresso resistia a medidas fiscais.

Durante alguns meses, o governo tentou aplicar as medidas. Depois, diante das greves, pressões salariais e perda de apoio, começou a recuar.

O plano não foi apenas sabotado por adversários. Também não fracassou exclusivamente por incompetência. Foi esmagado entre contradições reais.

Jango recuperara os poderes presidenciais. Não recuperara a capacidade de formar consenso.

Plano, execução e recuos: CPDOC/FGV — João Goulart.

O Plano Trienal tentava crescer, reformar, controlar preços e preservar salários. Em economia, isso já seria complicado. Na política brasileira de 1963, era praticamente uma modalidade de esporte radical.

As Reformas de Base

Jango defendia um conjunto de transformações conhecido como Reformas de Base: reforma agrária, tributária, bancária, administrativa, urbana e educacional, além de ampliação do voto e controle sobre remessas de lucros ao exterior.

O diagnóstico possuía fundamento. O Brasil havia se industrializado, mas mantinha estrutura fundiária extremamente concentrada. Milhões de trabalhadores rurais viviam sem direitos equivalentes aos urbanos.

Analfabetos, que representavam parcela enorme da população adulta, não podiam votar. O sistema tributário era ineficiente. A expansão das cidades produzia déficit habitacional e infraestrutura precária.

O país havia mudado economicamente sem modificar na mesma velocidade sua estrutura social.

A reforma agrária tornou-se o centro do conflito. A Constituição permitia desapropriação por interesse social, mas exigia indenização prévia, justa e em dinheiro.

Para realizar uma reforma ampla, o governo defendia o pagamento com títulos públicos. Isso exigia alteração constitucional.

Setores do PSD temiam mudanças no direito de propriedade. A UDN denunciava ameaça socialista. Proprietários rurais organizavam resistência.

À esquerda, movimentos camponeses e lideranças trabalhistas consideravam as propostas moderadas demais e lentas demais.

Jango precisava do Congresso para mudar a Constituição. Mas uma parte crescente de sua base começava a tratar o Congresso como obstáculo a ser pressionado pelas ruas.

A oposição utilizava essa pressão como prova de que o presidente pretendia ultrapassar a legalidade.

O sistema entrava num círculo perigoso: o Congresso bloqueava as reformas; o governo mobilizava as ruas; a mobilização assustava o Congresso; o bloqueio aumentava.

Havia uma revolução comunista em andamento?

Havia comunistas atuando no Brasil. O PCB, embora ilegal, possuía influência sindical, estudantil e intelectual. Luís Carlos Prestes apoiava as reformas e mantinha diálogo com o governo.

Havia setores da esquerda que defendiam transformações revolucionárias. Havia movimentos camponeses, greves e discursos que falavam em superar a ordem existente. A Revolução Cubana tornava esses temores mais intensos.

Portanto, o medo não surgiu do nada. Mas isso não significa que o Brasil estivesse prestes a ser tomado por uma insurreição comunista organizada.

O PCB defendia naquele momento uma estratégia de alianças e transição política, não possuía forças armadas capazes de conquistar o Estado e não controlava o governo Goulart.

Jango não era comunista. Era grande proprietário rural, político trabalhista e reformista nacionalista.

Mantinha comunistas próximos porque precisava da mobilização da esquerda, mas também negociava com empresários, militares, PSD, governo norte-americano e credores internacionais.

Seu projeto era ampliar o capitalismo nacional e incorporar grupos excluídos — não abolir a propriedade privada e instalar uma ditadura do proletariado.

Em períodos de polarização, pessoas deixam de combater o que o adversário realmente propõe. Passam a combater o que imaginam que ele fará depois.

Também existia uma conspiração contra o governo?

Sim. E sobre isso há documentação abundante.

Militares, empresários, políticos, proprietários rurais, organizações civis e setores da imprensa trabalhavam pela desestabilização ou derrubada do governo.

O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPES, produzia filmes, publicações, cursos e campanhas contra Jango e a esquerda. O Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o IBAD, financiou atividades políticas e candidaturas anticomunistas.

Governadores como Carlos Lacerda, Ademar de Barros e Magalhães Pinto participaram de articulações oposicionistas. Dentro das Forças Armadas, oficiais planejavam movimentos contra o governo.

Isso não significa que todos os críticos de Jango participassem do golpe. Havia opositores democráticos, empresários preocupados com a economia, católicos assustados e cidadãos que sinceramente acreditavam que o governo ultrapassaria a Constituição.

Mas a conspiração não era invenção da esquerda. Ela existia. E recebia apoio externo.

O governo dos Estados Unidos acompanhava a crise, financiava iniciativas políticas e considerava Jango pouco confiável no contexto da Guerra Fria.

Documentos norte-americanos mostram que Washington preparou a Operação Brother Sam. Caso houvesse resistência, uma força naval, combustível, armamentos, munição e apoio logístico poderiam ser disponibilizados aos grupos que derrubavam o governo.

A operação não precisou entrar em combate. O governo caiu antes.

O golpe não foi uma invenção inteiramente importada: existiam forças brasileiras poderosas trabalhando por ele. Mas também não foi acontecimento exclusivamente doméstico: Washington estava preparado para apoiar materialmente os golpistas.

Telegramas e ordens operacionais: Departamento de Estado dos EUA — Operação Brother Sam.

Não foi necessário um navio americano desembarcar soldados no Brasil. A frota foi preparada porque havia brasileiros dispostos a fazer o trabalho antes que ela chegasse.

A política desce para as ruas

Em 1963, a inflação crescia, a economia desacelerava e as greves se multiplicavam. O governo perdia apoio no centro.

À direita, consolidava-se a interpretação de que Jango preparava uma ruptura. À esquerda, crescia a convicção de que reformas negociadas com o Congresso jamais aconteceriam.

Leonel Brizola pressionava o presidente a abandonar a conciliação. Carlos Lacerda pressionava os militares a abandonar o governo.

Cada lado utilizava a radicalização do outro para justificar a própria.

Em setembro de 1963, sargentos da Aeronáutica e da Marinha rebelaram-se em Brasília depois que o Supremo Tribunal Federal confirmou a inelegibilidade de militares de baixa patente.

O movimento foi rapidamente controlado. Mas atingiu um ponto sensível: a disciplina militar.

Para oficiais, a atuação política de sargentos e marinheiros ameaçava a hierarquia. Para setores da esquerda, impedir a participação política das praças era preservar uma estrutura elitista.

Jango tentava manter apoio entre trabalhadores, sargentos e oficiais nacionalistas sem romper com os comandos militares. A margem para esse equilíbrio desaparecia.

O Comício da Central

João Goulart em 1964 durante a crise que antecedeu o golpe
João Goulart em 1964. Agência de fotografia holandesa Anefo / Wikimedia Commons, CC0.

Em 13 de março de 1964, o governo realizou uma grande concentração diante da estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

Cerca de 150 mil pessoas participaram segundo estimativa registrada pelo CPDOC.

Jango anunciou medidas relacionadas às Reformas de Base, defendeu alteração constitucional e assinou decretos sobre desapropriação de terras às margens de rodovias, ferrovias e obras federais, além da encampação de refinarias privadas de petróleo.

O discurso possuía conteúdo social real. A estrutura agrária precisava de transformação. A exclusão dos analfabetos do voto era incompatível com uma democracia ampla.

Mas a forma política também importava. Jango aparecia diante de uma multidão, cercado por sindicatos e lideranças de esquerda, pressionando um Congresso resistente às reformas.

Para seus apoiadores, o presidente finalmente escolhera o povo. Para seus adversários, revelara que pretendia governar contra as instituições.

O comício não implantou uma ditadura. Mas forneceu aos conspiradores a imagem de que precisavam para convencer indecisos de que a ruptura estava próxima.

Organização, público e medidas anunciadas: FGV — Comício das Reformas.

A Marcha

Seis dias depois, em 19 de março, ocorreu em São Paulo a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Centenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas. Havia senhoras católicas, empresários, políticos, famílias de classe média, grupos conservadores e organizações ligadas à oposição.

A marcha recebeu apoio de setores da Igreja, da imprensa e de entidades vinculadas ao IPES. Mas seria erro tratá-la apenas como multidão fabricada.

Muitas pessoas estavam genuinamente assustadas. Acreditavam que religião, família, propriedade e democracia estavam ameaçadas.

Algumas desejavam uma intervenção militar temporária. Outras talvez não soubessem exatamente o que viria depois.

A manifestação mostrava que o golpe não teria apenas uniformes. Teria apoio civil.

O país estava dividido entre multidões que diziam defender a democracia — e que já não concordavam sobre o significado da palavra.

Os marinheiros

Em 25 de março, marinheiros reuniram-se no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Reivindicavam melhores condições, direito de associação e mudanças disciplinares.

O ministro da Marinha ordenou prisões. Os marinheiros resistiram. Fuzileiros enviados para prendê-los aderiram ao movimento.

Jango negociou uma saída e permitiu que os revoltosos fossem libertados.

Para a esquerda, o presidente evitara repressão contra militares pobres. Para os oficiais, tolerara uma quebra aberta da hierarquia.

Poucos dias depois, em 30 de março, Jango discursou no Automóvel Clube para sargentos e suboficiais.

Em vez de reconstruir pontes com a alta oficialidade, apareceu novamente ligado às praças politizadas.

Essa foi uma falha decisiva. Jango não criou a conspiração, que já existia. Mas ajudou a convencer militares hesitantes de que os comandos estavam perdendo autoridade e que o presidente não os protegeria.

A oposição civil preparava o golpe. A atuação do próprio governo ampliava a base militar disposta a aceitá-lo.

Crise disciplinar e precipitação do golpe: FGV — Golbery do Couto e Silva.

Jango acreditava que poderia apoiar politicamente as bases das Forças Armadas sem perder seus comandantes. Descobriu tarde demais que um Exército raramente perdoa a sensação de que sua hierarquia deixou de existir.

O general que saiu antes da hora

O planejamento golpista ainda não estava completamente coordenado. Castelo Branco e outros conspiradores preferiam aguardar melhores condições.

Mas, em 31 de março de 1964, o general Olímpio Mourão Filho decidiu agir. Ordenou que tropas deixassem Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro.

A operação começou de forma precária. Os soldados avançavam por estrada, com recursos limitados e sem certeza de quais unidades adeririam.

Se o governo reagisse rapidamente, o movimento poderia ser contido. Jango possuía tropas legalistas. O general Ladário Teles comandava o I Exército. Brizola defendia resistência. Sindicatos tentavam organizar greve geral.

Mas o presidente hesitou. Unidades militares começaram a aderir. Comandantes que aguardavam o resultado perceberam para onde o poder se deslocava.

Governadores apoiaram os rebeldes. A cadeia de comando do governo desmoronou.

O golpe que começou antes do planejamento final venceu porque quase ninguém desejava ser o último a defendê-lo.

Por que Jango não resistiu?

Jango deixou o Rio, passou por Brasília e seguiu para o Rio Grande do Sul. Brizola queria repetir a Legalidade e defendia resistência armada.

Mas 1964 não era 1961. Grande parte do alto comando havia aderido. Governadores importantes apoiavam a deposição. A greve geral fracassava. Os conspiradores possuíam apoio civil, empresarial, midiático e norte-americano.

Jango poderia ordenar resistência. Isso provavelmente significaria combate entre unidades, bombardeios, mortes de civis e talvez guerra civil.

Ele decidiu não fazê-lo. Essa decisão pode ser interpretada como fraqueza, prudência ou responsabilidade. Talvez contenha as três coisas.

Jango não era um revolucionário disposto a destruir o país para permanecer no poder. Também não demonstrou a capacidade de comando necessária para organizar a defesa constitucional.

Recusou-se a produzir um banho de sangue. E perdeu a Presidência sem que os golpistas precisassem enfrentar a resistência que temiam.

A Presidência foi declarada vaga — com o presidente ainda no Brasil

Na madrugada de 2 de abril, o presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência da República.

O argumento era que João Goulart havia abandonado o país. Mas Jango ainda estava no Rio Grande do Sul.

O deputado Tancredo Neves protestou. A informação de que o presidente permanecia em território nacional foi apresentada. Mesmo assim, a sessão prosseguiu.

Ranieri Mazzilli foi empossado novamente.

A Constituição não afastou Jango. A força militar já o havia afastado. O Congresso forneceu aparência jurídica ao fato consumado.

Em 2013, o próprio Congresso anulou aquela sessão, reconhecendo que a Presidência fora declarada vaga quando João Goulart permanecia no Brasil.

No dia 4 de abril de 1964, Jango seguiu para o Uruguai. Começava seu exílio. Não voltaria vivo ao Brasil.

Registro e posterior anulação da vacância: Câmara dos Deputados — sessão de 2 de abril de 1964.

Não era apenas uma intervenção temporária

Muitos civis que apoiaram o movimento acreditavam que os militares reorganizariam o país, afastariam os radicais e convocariam novas eleições.

A eleição presidencial estava prevista para 1965. Juscelino Kubitschek pretendia concorrer. Carlos Lacerda também. Nenhum deles chegaria à Presidência pela eleição esperada.

Em 9 de abril de 1964, o Comando Supremo da chamada Revolução editou o Ato Institucional nº 1.

Mandatos foram cassados. Direitos políticos foram suspensos. Servidores foram afastados. Militares legalistas foram expulsos. Prisões começaram.

A ruptura apresentada como defesa da democracia começou suspendendo os mecanismos pelos quais uma democracia se defende.

Em 11 de abril, o Congresso, já submetido às novas regras e cercado pela força militar, elegeu indiretamente o general Castelo Branco.

A intervenção temporária duraria 21 anos.

Primeiros atos e consolidação da ditadura: Arquivo Nacional — 60 anos do golpe.

Jango foi derrubado porque seu governo era ruim?

Essa explicação é confortável. E insuficiente.

O governo Goulart teve problemas graves. A inflação cresceu. O Plano Trienal fracassou. A coalizão política se desfez.

Jango hesitou, recuou, mudou de estratégia e não conseguiu construir maioria estável. Aproximou-se de movimentos que assustavam setores moderados.

Subestimou o impacto da quebra de disciplina nas Forças Armadas. Permitiu que a pressão das ruas substituísse parte da negociação institucional. Em seus últimos meses, transmitiu sinais ambíguos sobre Constituinte, reformas e continuidade política.

Nada disso precisa ser escondido. Mas governos ruins não são automaticamente depostos por tanques.

Numa democracia, governos ineficientes enfrentam oposição, investigações, eleições ou processos constitucionais de impedimento.

Jango não foi retirado por uma avaliação administrativa neutra. Foi derrubado por uma coalizão civil e militar que decidiu interromper o processo constitucional.

Também é falso afirmar que sua queda ocorreu apenas porque tentou ajudar os pobres.

As reformas atingiam interesses reais, mas a crise envolvia inflação, Guerra Fria, medo social, disputa pelo poder, fragilidade partidária, radicalização, indisciplina militar, propaganda, ação estrangeira e erros do próprio governo.

A história fica mais difícil quando todos os elementos são mantidos. E mais verdadeira.

A República que nunca ficou pronta

Desde 1889, o Brasil tentava construir uma República.

Ela nasceu de um golpe militar sem participação popular. Foi controlada por oligarquias que transformaram eleições em cerimônias previsíveis. Viu revoltas contra governos que não representavam grande parte do país.

Assistiu a militares assumirem o papel de árbitros da política.

Getúlio Vargas derrubou a República Velha, modernizou o Estado, incorporou trabalhadores e depois fechou a democracia.

Em 1945, o país tentou novamente. Criou partidos, promoveu eleições, escreveu uma Constituição e ampliou a participação popular.

Mas cassou votos comunistas. Pressionou um presidente eleito até o suicídio. Tentou impedir a posse de Juscelino. Tentou impedir a posse de Jango.

E finalmente derrubou o governo quando as disputas sociais ultrapassaram aquilo que as elites, parte da classe média e as Forças Armadas estavam dispostas a aceitar.

O problema nunca foi apenas encontrar o presidente certo. Era construir instituições que continuassem funcionando quando o presidente fosse considerado errado.

A República avançava enquanto o resultado agradava aos grupos capazes de interrompê-la.

Quando trabalhadores, camponeses, sindicatos, estudantes e militares de baixa patente começaram a exigir espaço, o conflito passou a ser sobre quem possuía o direito de participar da decisão nacional.

Jango não conseguiu resolver esse conflito. Seus adversários decidiram encerrá-lo pela força.

Não encerraram. Apenas o congelaram durante duas décadas.

Em 1889, os militares derrubaram um imperador para criar a República. Em 1964, derrubaram um presidente para afirmar que estavam salvando-a. Entre os dois golpes, o Brasil nunca respondeu completamente: o que acontece quando o povo escolhe algo que os donos do poder não aceitam?

EPÍLOGO

O PRESIDENTE QUE ENTROU NA HISTÓRIAPELA PORTA DOS FUNDOS

João Goulart morreu no exílio, na Argentina, em 6 de dezembro de 1976. Oficialmente, vítima de um ataque cardíaco.

Seu corpo retornou a São Borja sem as honras devidas a um antigo chefe de Estado.

Décadas depois, o Congresso anulou a sessão que declarara sua Presidência vaga. O mandato foi simbolicamente devolvido.

Mas não existe resolução capaz de devolver o tempo.

Jango continua sendo disputado. Para alguns, foi o presidente que conduziria o Brasil ao comunismo. Para outros, o reformador democrático derrubado exclusivamente porque pretendia distribuir justiça social.

Os documentos não confirmam integralmente nenhum desses retratos.

Mostram um homem conciliador num tempo que deixou de aceitar conciliação. Um presidente com apoio popular, mas sem maioria política estável.

Um reformista que precisava das instituições e, ao mesmo tempo, passou a pressioná-las pelas ruas. Um governante cercado por conspiradores reais e prejudicado por erros próprios igualmente reais.

João Goulart não foi derrubado porque a democracia brasileira funcionou mal. Foi derrubado porque grupos poderosos decidiram que ela não deveria continuar funcionando.

A República sobreviveria. Mas, mais uma vez, precisaria recomeçar.

Porque nunca havia ficado pronta.

A REPÚBLICA QUENUNCA FICOU PRONTA

REFERÊNCIAS SELECIONADAS

Fontes, imagens e notas de apuração

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• https://www12.senado.leg.br/senado200anos/passado

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• Wikimedia Commons — imagem documental — https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Benedito_Calixto_-_Proclamação_da_República,_1893.jpg

• Wikimedia Commons — imagem documental — https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Revolução_de_1930_(cropped)_restored.jpg

• Wikimedia Commons — imagem documental — https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Propaganda_do_Estado_Novo_(Brasil).jpg

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• Wikimedia Commons — imagem documental — https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Campanha_da_Legalidade_(BR_RSMCOM_APP-04-M13109).jpg

• Wikimedia Commons — imagem documental — https://commons.wikimedia.org/wiki/File:João_Goulart_1964.jpg

Nota editorial

O artigo percorre cinco atos, da Proclamação da República ao golpe de 1964. Não apresenta 1964 como consequência inevitável de 1889, nem reduz a ruptura a uma causa única. Distingue problemas reais dos governos, disputas sociais, interesses econômicos, radicalização política, conspiração civil-militar e participação estrangeira.

As seis imagens históricas estão em domínio público ou CC0 e mantêm atribuição junto às legendas e nesta seção. A imagem destacada é uma composição editorial ChumbiVox.

Texto, pesquisa e arquitetura narrativa: Arão Filho / Chumbi History / Chumbiverse. Preparação editorial assistida por inteligência artificial, sob direção autoral humana.

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