CHUMBIVERSE / BRASIL / PRESIDENCIÁVEIS · PRESIDENCIÁVEIS — 001
De Goiânia aos palcos, dos cursos às redes e das redes às urnas: a trajetória do empresário que transformou atenção em influência e chegou a 2026 com candidatura registrada, mas situação eleitoral ainda em disputa.
Por Arão Filho
Pesquisa, arquitetura narrativa e preparação editorial para o Chumbiverse

TESE CENTRAL
Pablo Marçal não pode ser entendido apenas como empresário, influenciador, ex-coach ou candidato. Sua trajetória pública mostra a convergência entre economia da atenção, negócio pessoal e disputa eleitoral. A mesma habilidade de transformar fala em audiência e audiência em comunidade também levou suas estratégias de comunicação para o centro de decisões judiciais que hoje condicionam sua tentativa de chegar à Presidência.
NOTA DE PRECISÃO
Este perfil não recomenda voto e não classifica o personagem por simpatia, rejeição ou campo ideológico. Ele separa fatos documentados, versões apresentadas por Marçal ou por sua defesa, acusações, decisões recorríveis e processos ainda em andamento. As propostas detalhadas neste texto são do plano municipal apresentado em 2024; até 20 de agosto de 2026 não havia plano presidencial de governo de Marçal registrado na plataforma oficial do TSE. Na mesma data, sua candidatura presidencial estava registrada, mas ainda dependia de julgamento, e uma liminar do TSE havia restringido o uso de recursos oficiais de campanha, a participação em debates e o acesso ao horário eleitoral gratuito enquanto o registro fosse analisado. A situação jurídica pode mudar depois deste corte factual.
SUMÁRIO
- PRÓLOGO — ANTES DO VOTO, VEIO A ATENÇÃO
- 1. GOIÂNIA ANTES DO PALCO
- 2. QUANDO TRANSFORMAÇÃO VIROU NEGÓCIO
- 3. O PROCESSO QUE VOLTOU DUAS DÉCADAS DEPOIS
- 4. A MONTANHA QUE NÃO NEGOCIA
- 5. 2022: A PRESIDÊNCIA QUE TERMINOU ANTES DA URNA
- 6. SÃO PAULO E A ELEIÇÃO DOS CORTES
- 7. O QUE ELE REALMENTE COLOCOU NO PAPEL
- 8. QUANDO A PROVOCAÇÃO ENCONTROU UM DOCUMENTO FALSO
- 9. O MÉTODO QUE VIROU PROCESSO
- 10. 2026: REGISTRADO, MAS AINDA NÃO RESOLVIDO
- 11. O PATRIMÔNIO E A ESCALA DO NEGÓCIO
- 12. AFINAL, QUEM É PABLO MARÇAL?
- EPÍLOGO — O ALGORITMO CHEGOU À URNA
PRÓLOGO — ANTES DO VOTO, VEIO A ATENÇÃO
Durante boa parte do século XX, quem queria disputar poder precisava primeiro entrar em alguma máquina capaz de fabricar notoriedade. Partido, sindicato, igreja, jornal, televisão, governo, associação empresarial. A política vinha depois de uma longa travessia por instituições que funcionavam como porteiros: elas decidiam quem ganhava microfone, tempo e repetição.
Pablo Marçal apareceu por outra porta. Antes de conquistar um cargo público — algo que ainda não aconteceu — ele já havia construído aquilo que partidos tradicionais gastam fortunas tentando obter: uma audiência própria. Milhões de pessoas o conheciam por palestras, cursos, vídeos, livros, cortes e conteúdos de desenvolvimento pessoal. Quando entrou numa eleição, portanto, não começou do zero. Levou consigo uma infraestrutura de atenção.
É esse mecanismo que torna sua biografia mais interessante do que a pergunta simplista sobre gostar ou não gostar dele. A história de Marçal é a história de um personagem que aprendeu a transformar atenção em negócio e, depois, tentou transformar atenção em voto. O problema é que a lógica que recompensa um influenciador nem sempre é a mesma que regula uma campanha eleitoral. E é justamente nessa fronteira que sua trajetória começa a ficar mais complicada.
1. GOIÂNIA ANTES DO PALCO
Pablo Henrique Costa Marçal nasceu em 18 de abril de 1987, em Goiânia. No perfil biográfico apresentado por sua própria campanha à Prefeitura de São Paulo em 2024, ele se descreve como alguém criado na periferia da capital goiana, com grande parte da formação escolar feita em instituições públicas. O mesmo documento informa graduação em Direito pela Universidade Paulista e MBA em Gestão Empresarial.
A campanha também afirma que sua trajetória profissional começou como atendente de call center em uma grande empresa de telecomunicações e que, dentro dela, avançou para funções de liderança. É importante manter a etiqueta correta: esses detalhes vêm de material apresentado pela própria candidatura, não de uma auditoria independente de currículo. Ainda assim, ajudam a compreender a narrativa de origem que Marçal escolheu para explicar a si mesmo.
Essa origem combina dois elementos que depois se tornariam centrais em sua vida pública: comunicação e ascensão. O primeiro emprego apresentado ao eleitor é um trabalho baseado em voz, convencimento, resposta rápida e tolerância à rejeição. A biografia que vem depois é a de alguém que deixa de atender pessoas uma a uma e passa a falar para multidões.
2. QUANDO TRANSFORMAÇÃO VIROU NEGÓCIO
Marçal ganhou projeção nacional fora da política. Seu território inicial foi o mercado de desenvolvimento pessoal: cursos, imersões, palestras, livros, mentorias, comunidades digitais e eventos. A matéria-prima desse universo é antiga. Pessoas querem ganhar mais, trabalhar melhor, perder medos, mudar hábitos, sentir que controlam a própria vida. A novidade é a escala digital.
A mensagem de desenvolvimento pessoal funciona porque transforma problemas difusos em uma narrativa manejável. A vida travou? Há um bloqueio. A renda não cresce? É preciso mudar comportamento. A carreira perdeu direção? Falta posicionamento. A solução oferecida costuma aparecer como método, treinamento, ambiente, disciplina e mudança de mentalidade.
Isso não é exclusivo de Marçal, mas ele se tornou particularmente eficiente em empacotar essa promessa com intensidade, frases curtas, linguagem de confronto e uma identidade fortemente pessoal. O produto não era apenas um curso. Era a sensação de entrar numa comunidade que acredita estar agindo enquanto os outros hesitam.
Esse modelo resolveu um problema: criou audiência, receita e reconhecimento sem depender de televisão aberta ou de uma estrutura partidária. Mas abriu outro. Quando a figura do empreendedor, o vendedor de cursos, o influenciador e o candidato passam a ocupar o mesmo rosto, onde termina um negócio e começa uma campanha? Essa pergunta apareceria com força anos depois.
3. O PROCESSO QUE VOLTOU DUAS DÉCADAS DEPOIS
Existe um capítulo anterior à fama que reapareceu com força quando Marçal entrou em eleições. Em 2005, aos 18 anos, ele foi detido durante uma investigação da Polícia Federal relacionada a um grupo que praticava fraudes bancárias pela internet. Documentos do processo analisados por veículos de imprensa atribuem a Marçal participação em tarefas ligadas à infraestrutura usada pelo grupo, enquanto ele passou a sustentar publicamente que trabalhava apenas com manutenção de computadores e não conhecia o esquema criminoso.
Em 2010, a Justiça Federal o condenou a quatro anos e cinco meses por furto qualificado. A condenação existiu. A pena, porém, não foi cumprida: em 2018, a pretensão punitiva foi alcançada pela prescrição. Esse detalhe jurídico é essencial porque duas simplificações opostas produzem o mesmo defeito factual. Dizer que ele cumpriu pena pela condenação é incorreto. Dizer que nunca houve condenação também é incorreto.
A entrada na política fez o arquivo voltar à superfície. Adversários passaram a citar o caso em debates; reportagens reconstruíram a investigação; Marçal reiterou sua versão. A internet, que ajudou a construir sua fama, também eliminou uma antiga vantagem do tempo: fatos enterrados deixam de ficar enterrados quando uma campanha transforma o passado em conteúdo pesquisável.
4. A MONTANHA QUE NÃO NEGOCIA
Em janeiro de 2022, outro episódio projetou Marçal para fora do universo de seus seguidores. Um grupo subiu o Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, em condições meteorológicas ruins. A operação terminou com resgate do Corpo de Bombeiros. O episódio ganhou repercussão porque o discurso de superação de limites encontrou uma variável que não responde a convicção: clima de montanha.
Em 2025, a Justiça de São Paulo aceitou denúncia do Ministério Público e tornou Marçal réu em ação que atribui a ele exposição de 32 pessoas a perigo direto e iminente. A defesa nega que ele tenha sido o organizador ou responsável formal pela atividade, afirma que se tratava de uma caminhada entre amigos e sustenta que não houve dolo. Em agosto de 2026, a primeira audiência de instrução e julgamento estava marcada para 30 de setembro.
Não existe, portanto, condenação definitiva nesse processo no corte factual deste artigo. O que existe é uma ação penal em andamento. Mas o episódio é revelador por outro motivo: o estilo narrativo que funciona em desenvolvimento pessoal — ir além, suportar desconforto, desafiar limites — pode produzir consequências completamente diferentes quando o limite é físico e coletivo.

5. 2022: A PRESIDÊNCIA QUE TERMINOU ANTES DA URNA
No mesmo ano, Marçal tentou entrar pela primeira vez na disputa presidencial. O PROS registrou sua candidatura, mas uma guerra interna pelo comando da legenda mudou o destino da chapa. O TSE acabou homologando o cancelamento da convenção que havia lançado Marçal e Fátima Pérola Neggra e aprovou a adesão do partido à coligação que apoiava Luiz Inácio Lula da Silva.
A candidatura presidencial perdeu o objeto antes da votação. Em termos eleitorais, o projeto morreu. Em termos de construção de personagem, porém, a experiência serviu como ensaio. Marçal já podia se apresentar não apenas como empresário que opinava sobre o país, mas como alguém que havia tentado disputar a Presidência.
Ele então concorreu a deputado federal por São Paulo e recebeu 243.037 votos. Uma retotalização chegou a colocá-lo temporariamente entre os eleitos, mas uma decisão posterior do TSE suspendeu o deferimento de seu registro e nova retotalização retirou a vaga. O resultado foi estranho: ele não assumiu o mandato, mas saiu da eleição com uma evidência objetiva de capacidade de mobilização.

6. SÃO PAULO E A ELEIÇÃO DOS CORTES
A prova de escala veio em 2024. Marçal entrou na disputa pela Prefeitura de São Paulo pelo PRTB e, em pouco tempo, obrigou a eleição a se reorganizar ao redor de sua presença. Não porque tivesse a maior estrutura partidária, mais tempo de televisão ou uma longa carreira administrativa. Sua vantagem estava em outra parte: ele já pensava como produtor de atenção.
Um debate tradicional é desenhado para durar duas horas. A lógica digital o fragmenta em milhares de unidades menores. Uma frase, um confronto, uma expressão facial, uma acusação, um momento de irritação. Para um político clássico, o debate termina quando a emissora corta o sinal. Para uma campanha otimizada para redes, o debate pode apenas estar começando.
Marçal se mostrou particularmente adaptado a esse ambiente. O objetivo não precisava ser produzir o argumento mais completo da noite. Bastava produzir momentos com alta capacidade de circulação. O candidato passou a disputar simultaneamente duas eleições: a do eleitor diante da televisão e a do usuário diante do feed.
O resultado foi enorme. No primeiro turno, Ricardo Nunes terminou com 29,48% dos votos válidos, Guilherme Boulos com 29,07% e Marçal com 28,14%. Ele ficou em terceiro, por margem pequena, numa cidade com mais de seis milhões de votos válidos. Não virou prefeito. Virou algo diferente: um caso nacional de conversão de audiência digital em força eleitoral.

7. O QUE ELE REALMENTE COLOCOU NO PAPEL
Aqui existe um cuidado indispensável. Em agosto de 2026, Marçal ainda não havia registrado um plano presidencial oficial de governo. Portanto, não é correto transformar automaticamente suas propostas para a Prefeitura de São Paulo em programa para o Brasil. O que podemos fazer é olhar para o documento municipal de 2024 e identificar temas que ele efetivamente colocou no papel naquele momento.
O plano defendia forte digitalização da prefeitura, integração de dados, ampliação de parcerias com o setor privado e uma linguagem de gestão orientada por eficiência. Na educação, propunha inserir empreendedorismo, finanças, programação digital e educação emocional no currículo municipal, além de sistemas de avaliação e remuneração vinculados a metas. Na segurança, falava em integrar inteligência e monitoramento e chegou a propor triplicar o efetivo da Guarda Civil Metropolitana.
Havia também propostas de grande visibilidade: rede de teleféricos para áreas densamente povoadas e um edifício de aproximadamente um quilômetro de altura, pensado como símbolo internacional de São Paulo. Especialistas ouvidos na época por veículos de imprensa questionaram viabilidade técnica, desenho financeiro e profundidade de algumas medidas.
O conjunto permite enxergar um padrão mais do que um programa nacional: empreendedorismo como valor educacional, tecnologia como instrumento de administração, uso intensivo de dados, parceria com iniciativa privada e preferência por projetos de forte impacto simbólico. Mas qualquer afirmação sobre o que Marçal faria como presidente precisa esperar um documento presidencial próprio. Até este corte factual, ele não existe.
8. QUANDO A PROVOCAÇÃO ENCONTROU UM DOCUMENTO FALSO
A campanha de 2024 produziu uma das controvérsias mais graves da trajetória eleitoral de Marçal. Ao longo da disputa, ele associou repetidamente Guilherme Boulos ao uso de cocaína. A dois dias do primeiro turno, publicou em suas redes um suposto laudo médico que sustentaria a acusação.
O documento era falso. Perícias da Polícia Civil de São Paulo e da Polícia Federal concluíram que a assinatura atribuída ao médico não correspondia aos padrões verdadeiros. Marçal declarou que havia recebido e publicado o material e negou ser o autor do laudo. A Polícia Federal o indiciou por uso de documento falso.
Em fevereiro de 2026, Marçal aceitou um acordo proposto pelo Ministério Público Eleitoral para suspender por dois anos a ação penal eleitoral relacionada ao episódio. A própria decisão ressalta que a aceitação do acordo não equivale a confissão ou reconhecimento de culpa. Em outra frente, na Justiça civil, ele foi condenado em primeira instância a indenizar Boulos por falsas acusações; a defesa anunciou recurso.
A diferença aqui é importante para o perfil. Campanhas suportam exagero, retórica, provocação e afirmações que adversários contestam. Um documento falsificado ultrapassa essa zona de performance. A partir daí, o problema deixa de ser apenas comunicação agressiva e entra no campo de prova, autenticidade e responsabilidade jurídica.
9. O MÉTODO QUE VIROU PROCESSO
A engrenagem de cortes que ajudou a ampliar a campanha também foi parar na Justiça Eleitoral. Em dezembro de 2025, o TRE-SP manteve, por 4 votos a 3, a inelegibilidade de Marçal por oito anos a partir da eleição de 2024, reconhecendo uso indevido dos meios de comunicação social no chamado “concurso de cortes”, com remuneração e oferta de brindes a participantes que disseminavam conteúdos.
O tribunal também manteve multa de R$ 420 mil por descumprimento de ordem judicial, mas afastou, naquele processo específico, condenações de primeira instância por captação e gastos ilícitos de recursos e abuso de poder econômico. Isso importa porque a descrição correta não é “a Justiça confirmou tudo”. Confirmou uma parte, afastou outra, e deixou aberta a possibilidade de recurso ao TSE.
Outra condenação de inelegibilidade, relacionada à oferta de apoio a candidatos a vereador em troca de Pix, foi revertida por unanimidade pelo próprio TRE-SP em novembro de 2025. O mosaico jurídico, portanto, é menos simples do que uma manchete. Há processos diferentes, resultados diferentes e estágios diferentes.
Mas a ironia central permanece: a técnica que transformou Marçal em um dos personagens mais eficientes da eleição digital também se tornou o núcleo de uma decisão que ameaça justamente sua capacidade de disputar novas eleições. A solução de comunicação criou um novo problema eleitoral.
10. 2026: REGISTRADO, MAS AINDA NÃO RESOLVIDO
Em agosto de 2026, Marçal voltou ao centro da disputa presidencial pelo PRTB. Seu registro foi apresentado à Justiça Eleitoral, apesar da inelegibilidade decorrente da decisão colegiada do TRE-SP. Como ocorre no sistema eleitoral brasileiro, o simples protocolo do registro não encerra a discussão sobre elegibilidade: a Justiça ainda precisa analisar o pedido e as impugnações.
No dia 20 de agosto, o TSE concedeu por unanimidade uma tutela de urgência requerida pelo Ministério Público Eleitoral. A medida proibiu Marçal de utilizar recursos oficiais de campanha enquanto o registro é analisado e também restringiu sua participação em debates e o acesso ao horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão.
Isso cria uma situação peculiar. Politicamente, há uma candidatura apresentada e um candidato que tenta fazer campanha. Juridicamente, sua permanência definitiva na disputa ainda depende do tribunal. Não é correto dizer que ele já foi definitivamente excluído da eleição; também não é correto tratá-lo como um candidato plenamente liberado, em situação idêntica à de quem não carrega impedimento judicial.
A eleição de 2026, portanto, coloca Marçal diante de uma disputa em duas pistas. Uma ocorre diante do eleitor. A outra ocorre nos autos.
11. O PATRIMÔNIO E A ESCALA DO NEGÓCIO
A trajetória empresarial aparece também nas declarações de bens. Para a eleição de 2026, Marçal informou ao TSE patrimônio de aproximadamente R$ 149,9 milhões após corrigir um valor inicialmente lançado de forma errada. Em 2024, a declaração havia sido cerca de R$ 20 milhões maior.
Patrimônio não é certificado de competência administrativa, assim como riqueza não demonstra automaticamente mérito ou irregularidade. O dado é relevante por outro motivo: mostra a escala econômica alcançada por alguém cuja marca pessoal está conectada a empresas, investimentos, cursos, eventos e produtos de comunicação.
Esse desenho reforça uma característica incomum. A mesma identidade pública pode conversar, ao mesmo tempo, com aluno, cliente, seguidor, fã, crítico e eleitor. Em estruturas tradicionais, campanha e atividade comercial costumam ter marcas mais separadas. No modelo de influência, as fronteiras podem ficar muito mais próximas — e isso aumenta tanto o poder de mobilização quanto a necessidade de regras claras.
12. AFINAL, QUEM É PABLO MARÇAL?
A resposta depende do momento da fotografia. Há o jovem de Goiânia que aparece na própria biografia de campanha como funcionário de telecomunicações. Há o réu do processo de fraude bancária que terminou com condenação e posterior prescrição. Há o empresário que construiu patrimônio. Há o palestrante. Há o escritor. Há o influenciador. Há o participante da expedição ao Pico dos Marins. Há o candidato presidencial de 2022 que não chegou à urna. Há o candidato a deputado que recebeu 243 mil votos e não assumiu. Há o terceiro colocado na eleição paulistana de 2024. E há, agora, o presidenciável de 2026 com registro em julgamento.
Para admiradores, essa sequência pode representar independência das estruturas tradicionais, capacidade de execução, empreendedorismo e coragem de confronto. Para críticos, pode representar a transformação da política em extensão de uma marca pessoal, a simplificação de problemas complexos e o risco de recompensar mais a capacidade de gerar atenção do que a de sustentar políticas públicas.
Um perfil documental não precisa escolher uma dessas versões e fingir que a outra não existe. Precisa mostrar por que ambas encontram material na mesma trajetória. Marçal é, ao mesmo tempo, produto e produtor de um ambiente em que reputação, negócio, audiência e política passaram a circular pelo mesmo aparelho no bolso do eleitor.

EPÍLOGO — O ALGORITMO CHEGOU À URNA
A grande mudança talvez não seja Pablo Marçal. Talvez seja o caminho que tornou Pablo Marçal possível como candidato competitivo.
A televisão ensinou políticos a falar para milhões de pessoas ao mesmo tempo. As redes fizeram outra coisa: ensinaram personagens públicos a falar para milhões de pessoas como se cada uma tivesse recebido uma mensagem individual — e depois transformaram cada receptor em distribuidor potencial.
Quando Marçal chegou a 28,14% dos votos válidos em São Paulo, ficou demonstrado que uma comunidade digital podia adquirir peso eleitoral sem passar, primeiro, por décadas de carreira institucional. O algoritmo não vota. Ele não tem título eleitoral. Não aperta “confirma”. Mas escolhe, repetidamente, o que será visto, repetido, discutido, odiado, defendido e lembrado.
Em 2026, a pergunta sobre Pablo Marçal não é apenas se ele conseguirá permanecer na eleição. É também o que sua trajetória revela sobre a eleição que já chegou. Uma disputa na qual o candidato não precisa apenas convencer. Precisa circular.
E talvez aí esteja a principal mudança de época: antes, a política tentava dominar a mídia. Agora, alguns candidatos chegam depois de já terem aprendido a dominar a atenção.
FONTES E NOTA EDITORIAL
Fontes primárias e jornalísticas incluem TSE, TRE-SP, DivulgaCandContas, decisões e registros eleitorais, além de Folha de S.Paulo, UOL, CNN Brasil, SBT News e Band Vale. A relação completa, com URLs e licenças das imagens, está no arquivo 05_FONTES_E_CREDITOS.txt do pacote editorial.
Verificação factual: 20 de agosto de 2026. Este perfil não recomenda voto. Situações judiciais e eleitorais podem mudar após a publicação.





