Ele transformou uma rede familiar de lojas em um grupo nacional, entrou na política aos 53 anos, venceu Minas Gerais como outsider, foi reeleito no primeiro turno e deixou o governo para tentar o Planalto. A promessa é simples: administrar o Brasil com lógica de empresa. A pergunta é se um país aceita ser gerenciado como uma.

Por Arão Filho
Pesquisa, arquitetura narrativa e preparação editorial para o Chumbiverse

TESE CENTRAL
Romeu Zema construiu sua identidade política sobre uma ideia muito clara: o Estado brasileiro funciona mal porque administra mal. Em Minas, ele ganhou legitimidade ao normalizar salários, reorganizar parte das contas e vender a imagem de gestor. Mas deixou também uma dívida estadual maior, conflitos com servidores, uma privatização controversa da Copasa e uma pergunta sem resposta simples: o que funciona numa empresa pode ser transferido para um país onde eficiência, direitos, desigualdade, federação e democracia precisam existir ao mesmo tempo?

Nota de precisão: Este perfil não recomenda voto. Dados de governo são apresentados com contexto: melhora de fluxo de caixa não significa solução da dívida; crescimento da dívida não prova, sozinho, piora de gestão; privatização autorizada não é sinônimo de serviço automaticamente melhor ou pior. Falas controversas são reproduzidas em contexto e críticas são identificadas como críticas. Corte factual: 20 de agosto de 2026. Romeu Zema deixou o governo de Minas em 22 de março de 2026 e teve sua candidatura presidencial pelo Novo protocolada no TSE, com Eduardo Girão como vice.

PRÓLOGO — O HOMEM QUE CHEGOU COM UMA CALCULADORA

Em 2018, Romeu Zema apareceu diante do eleitor mineiro com um argumento tão simples que parecia impossível competir com ele.

Minas Gerais estava quebrada.

Salários de servidores eram pagos de forma parcelada. Repasses aos municípios estavam atrasados. O déficit era gigantesco. A dívida com a União parecia uma parede sem porta.

E então surgiu um empresário dizendo que sabia administrar.

Não era uma promessa sofisticada.

Era quase uma provocação.

Se uma empresa não paga funcionário, ela fecha. Se gasta mais do que ganha, quebra. Se mantém estrutura que não entrega resultado, corta. Se tem um ativo que não faz sentido, vende.

Por que o governo deveria ser diferente?

A ideia funcionou eleitoralmente.

Zema entrou na disputa praticamente desconhecido e terminou o segundo turno de 2018 com 71,8% dos votos válidos. Quatro anos depois, foi reeleito no primeiro turno.

Agora ele quer levar o mesmo raciocínio para Brasília.

O problema é que um país não é uma loja.

Um cliente pode escolher outra empresa.

Um cidadão não escolhe outro Estado toda vez que um serviço piora.

Uma empresa pode abandonar um mercado não lucrativo.

Um governo continua responsável por quem mora nele.

E uma planilha mede custos com enorme precisão.

Mas nem sempre sabe medir justiça.

É nesse espaço — entre eficiência e política — que existe Romeu Zema.

1. ARAXÁ ANTES DE BRASÍLIA

Romeu Zema Neto nasceu em 28 de outubro de 1964, em Araxá, Minas Gerais.

O sobrenome já tinha história empresarial.

O Grupo Zema nasceu em 1923, a partir de atividades ligadas à família do imigrante italiano Domingos Zema. Ao longo das décadas, os negócios avançaram por combustíveis, autopeças, veículos, varejo, serviços financeiros e imóveis.

Zema não fundou a empresa do zero.

Esse detalhe importa porque a imagem política do “empresário que construiu tudo sozinho” seria incorreta.

Ele nasceu dentro de uma estrutura familiar já existente.

Mas também seria incorreto concluir que apenas herdou uma máquina pronta e ficou sentado sobre ela.

Formado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas, ele entrou cedo nas operações da família e assumiu o comando das Lojas Zema em 1991.

Segundo a biografia oficial do governo mineiro, a rede tinha quatro unidades quando ele assumiu e chegou a mais de 430 lojas sob sua gestão, espalhadas por vários estados.

Fontes empresariais da época da eleição de 2018 descreviam um conglomerado com centenas de pontos de venda, milhares de empregados e faturamento bilionário.

O modelo possuía uma característica importante.

Interior.

Cidades pequenas.

Consumidor fora das capitais.

Crédito.

Logística.

Operações dispersas.

Zema passou décadas administrando uma organização que precisava funcionar longe dos grandes centros.

Essa experiência se tornaria, depois, argumento eleitoral.

Antes de vender um projeto político, ele havia aprendido a vender geladeira onde muita gente grande não queria abrir loja.

2. A EMPRESA VIROU BIOGRAFIA POLÍTICA

Em 2016, depois de cerca de 26 anos no comando executivo do grupo, Zema deixou a função de CEO e passou para o conselho.

Dois anos depois, entraria numa eleição pela primeira vez.

A transição era perfeita para a narrativa do Partido Novo.

O Brasil estava saindo de uma recessão profunda. A Lava Jato havia destruído reputações. Minas Gerais atravessava uma crise fiscal severa. A confiança em partidos tradicionais estava em queda.

O Novo vendia justamente a ideia de importar profissionais da iniciativa privada para a política.

Zema era quase um produto feito sob medida.

Empresário.

Sem mandato anterior.

Discurso de eficiência.

Pouca liturgia política.

Vocabulário de custos, produtividade, metas e resultado.

O personagem estava pronto.

Faltava descobrir se o eleitor compraria.

3. 2018 — O DESCONHECIDO QUE PASSOU POR TODO MUNDO

No início da eleição mineira de 2018, Zema não era o favorito.

O estado tinha nomes nacionais, estruturas partidárias tradicionais e um governador tentando a reeleição.

Mesmo assim, Zema terminou o primeiro turno em primeiro lugar, com cerca de 42,7% dos votos válidos.

No segundo turno, enfrentou Antonio Anastasia.

Venceu com 6,96 milhões de votos — 71,8% dos válidos.

Foi uma vitória esmagadora.

E a primeira vitória do Novo para o governo de um estado.

Durante a campanha, Zema se apresentou como o gestor que cortaria despesas, reduziria secretarias, enfrentaria privilégios e devolveria previsibilidade às contas.

Também prometeu que só receberia salário de governador depois que os servidores estivessem pagos.

A ideia central era menos ideológica do que operacional.

Minas não precisava primeiro de uma nova teoria sobre o Estado.

Precisava pagar as contas.

Quando tomou posse em janeiro de 2019, essa promessa encontrou o caixa real.

Romeu Zema durante a campanha de 2018, quando disputava sua primeira eleição. Foto: Página Romeu Zema / reprodução pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

4. A MINAS QUE ZEMA RECEBEU ESTAVA EM EMERGÊNCIA

A própria documentação do governo mineiro descreve o cenário herdado como crítico.

Havia dezenas de bilhões de reais em despesas acumuladas e não pagas.

A dívida pública estava acima de R$ 100 bilhões.

Salários e décimo terceiro de servidores haviam sido parcelados.

Prefeituras reclamavam de repasses atrasados.

A entrada de Zema no Palácio Tiradentes foi, portanto, menos parecida com assumir uma empresa saudável e mais parecida com entrar numa companhia cujo departamento financeiro já apagava incêndios.

Ele prometeu austeridade.

Redução de estrutura.

Controle de despesas.

Regularização de pagamentos.

Parcerias privadas.

Venda de ativos quando necessário.

O primeiro grande teste era simples de explicar e difícil de executar:

fazer o Estado voltar a pagar em dia.

Romeu Zema toma posse no governo de Minas Gerais em 1º de janeiro de 2019. Foto: Omar Freire/Imprensa MG, reproduzida por Acessa.com.

5. SALÁRIO EM DIA É POUCO — ATÉ O DIA EM QUE NÃO EXISTE

Uma das marcas mais repetidas por Zema é a regularização do pagamento dos servidores estaduais.

O argumento dos críticos é óbvio: pagar salário em dia deveria ser obrigação elementar, não realização extraordinária.

Correto.

Mas existe um pequeno inconveniente histórico.

Quando ele assumiu, a obrigação elementar não estava sendo cumprida.

A gestão conseguiu normalizar salários e décimo terceiro e quitar parcelas de repasses atrasados a municípios.

Politicamente, isso foi poderoso porque transformou um resultado administrativo básico em contraste concreto com o período anterior.

O discurso de “gestor” ganhou um fato fácil de entender.

Servidor recebe.

Prefeitura recebe.

Conta deixa de vencer sem dinheiro.

Só que resolver fluxo de caixa não significa resolver estrutura de dívida.

E foi justamente aí que Minas continuou carregando um problema gigantesco.

6. A DÍVIDA: COMO MELHORAR AS CONTAS E CONTINUAR DEVENDO MAIS

A história fiscal de Minas é uma aula de por que números públicos precisam de contexto.

Zema assumiu um estado muito endividado.

Durante grande parte de seu governo, Minas ficou protegida por decisões judiciais que suspenderam pagamentos da dívida com a União.

Isso ajudou o caixa no curto prazo.

Mas o saldo devedor continuou acumulando encargos.

Em 2026, a dívida estadual era estimada em mais de R$ 200 bilhões, com a maior parte devida à União.

Então qual narrativa é verdadeira?

“Zema consertou as contas.”

Ou:

“Zema aumentou a dívida.”

As duas frases podem utilizar números reais e ainda assim enganar.

O governo conseguiu reorganizar o fluxo fiscal, regularizar pagamentos e, segundo relatórios estaduais, alcançar equilíbrio orçamentário em exercícios posteriores.

Ao mesmo tempo, a dívida acumulada continuou crescendo num sistema em que os pagamentos estavam suspensos e o estoque antigo seguia sendo corrigido.

A dívida não nasceu com Zema.

Também não desapareceu com ele.

O verdadeiro desafio foi adiado, renegociado e transferido para mecanismos como o Regime de Recuperação Fiscal e, depois, o Propag.

A planilha melhorou em algumas linhas.

A montanha continuou lá.

7. O GOVERNADOR QUE QUERIA TRAZER EMPRESA PARA DENTRO DO ESTADO

Outra marca do governo foi a tentativa de simplificar ambiente regulatório e atrair investimento privado.

A gestão ampliou programas de liberdade econômica, digitalização, redução de exigências e negociação com empresas.

O governo passou a divulgar números bilionários de investimentos atraídos ou anunciados para Minas.

Esses dados precisam de cuidado.

“Investimento atraído” não significa necessariamente dinheiro já desembolsado.

Projetos podem ser anunciados, escalonados, reduzidos ou cancelados.

Mas há um dado político relevante: Zema transformou atração de empresas em uma espécie de indicador central de governo.

Na visão dele, o Estado não deveria produzir tudo.

Deveria criar condições para quem produz.

A crítica apareceu do outro lado.

Deputados e adversários questionaram o volume de benefícios fiscais concedidos e a transparência sobre quem recebia incentivos.

Em 2026, já fora do governo, Zema continuava defendendo sigilo sobre determinados beneficiários, argumentando que a exposição poderia prejudicar negociações e competitividade.

Aqui aparece um conflito clássico.

Para o empresário, informação estratégica pode ser segredo comercial.

Para o Estado, benefício fiscal é dinheiro público que deixa de entrar.

A fronteira entre gestão empresarial e transparência pública ficou visível.

8. SERVIDOR NÃO É FUNCIONÁRIO DE EMPRESA — E FOI AÍ QUE A FRICÇÃO COMEÇOU

O mesmo modelo de gestão que produziu popularidade em parte do eleitorado gerou conflitos recorrentes com categorias do funcionalismo.

Educação foi um dos principais campos.

Professores e sindicatos cobraram aplicação integral do piso nacional, recomposição de perdas e valorização das carreiras.

O governo sustentou durante períodos que o piso deveria ser aplicado proporcionalmente à jornada estadual.

Em 2024, Zema vetou dispositivo que vinculava reajustes das carreiras da educação à atualização nacional do piso.

A Assembleia Legislativa rejeitou o veto.

O episódio é importante porque revela uma diferença fundamental entre empresa e Estado.

Numa empresa, o gestor define grande parte da política interna dentro da legislação.

Num governo, Assembleia, tribunais, sindicatos, Constituição e regras federais participam da equação.

Gestão pública não é comando.

É negociação institucional permanente.

E esse é um ambiente em que eficiência não pode simplesmente demitir a discordância.

9. 2022 — O OUTSIDER VIROU SITUAÇÃO E VENCEU DE NOVO

Quatro anos depois, Zema já não podia se vender como desconhecido.

Era o governador.

Tinha realizações para defender, problemas para explicar e uma máquina pública sob sua responsabilidade.

Ainda assim, foi reeleito no primeiro turno.

Com 100% das seções totalizadas, recebeu 6.094.136 votos — 56,18% dos votos válidos.

Alexandre Kalil terminou em segundo.

A vitória teve enorme importância para a narrativa nacional de Zema.

2018 podia ser explicado por onda antipolítica.

2022 era uma avaliação de governo.

O eleitor mineiro havia experimentado o produto.

E comprou de novo.

10. A PRIVATIZAÇÃO DA COPASA — A TEORIA LIBERAL ENCONTROU UMA EMPRESA REAL

Durante anos, Zema defendeu privatizações.

Mas privatização genérica é um conceito confortável.

Quando a empresa tem nome, funcionários, consumidores e ações negociadas em bolsa, o debate muda.

A Copasa tornou-se o grande teste.

Em 2025, Zema enviou projeto para autorizar a privatização da companhia de saneamento.

Antes disso, sua base conseguiu aprovar uma emenda constitucional retirando a exigência de referendo popular para privatização ou federalização da empresa em determinadas condições ligadas ao pagamento da dívida estadual.

A oposição chamou a mudança de retirada da voz da população.

O governo argumentou que precisava de instrumentos para equacionar a dívida e ampliar investimentos no saneamento.

Em dezembro de 2025, a Assembleia aprovou definitivamente o projeto de privatização por 53 votos a 19.

Zema sancionou a lei.

Ele deixou o governo em março de 2026.

A operação de desestatização seria concluída em junho, já sob Mateus Simões, movimentando R$ 8,3 bilhões segundo o governo estadual.

Isso cria um caso quase perfeito para a biografia de Zema.

Uma proposta ideológica virou legislação.

A legislação virou operação econômica.

Agora a única pergunta que realmente importa levará anos para responder:

o serviço ficou melhor e mais eficiente para o usuário?

Privatização é meio.

Resultado é o fim.

11. QUANDO A PLANILHA ENCONTROU O MAPA DO BRASIL

Em agosto de 2023, Zema provocou uma das maiores controvérsias de seus mandatos ao defender maior articulação política dos estados do Sul e Sudeste.

Ele argumentou que essas regiões concentravam grande parcela da população e da economia, mas agiam de forma menos coordenada em Brasília do que Norte e Nordeste.

Em uma comparação que gerou forte reação, falou sobre estados mais produtivos e menos produtivos usando a imagem de “vaquinhas”.

Governadores nordestinos, ministros e parlamentares acusaram a fala de alimentar divisão regional e preconceito.

Zema negou intenção separatista e afirmou que defendia equilíbrio federativo e união.

A polêmica revelou um problema de comunicação que reapareceria outras vezes.

Seu discurso empresarial gosta de comparar desempenho.

Mas regiões não são filiais.

Estados mais pobres não existem porque falharam numa meta trimestral.

História, infraestrutura, escravidão, concentração de renda, clima, políticas federais e ciclos econômicos moldaram desigualdades por séculos.

A linguagem da produtividade pode explicar parte da economia.

Usada sem cuidado, também pode parecer que está dando nota para brasileiros.

12. O TSE E A PROPAGANDA INSTITUCIONAL

Em maio de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral multou Romeu Zema e gestores do governo mineiro por conduta vedada nas eleições de 2022.

O caso envolvia publicidade institucional mantida em sites oficiais durante período proibido pela legislação eleitoral.

A decisão é relevante porque contrasta com uma das marcas centrais da imagem política de Zema: respeito a regras, profissionalização e crítica ao uso da máquina pública.

Não foi uma condenação por corrupção.

Não tornou Zema inelegível.

Foi uma sanção eleitoral por divulgação institucional em período vedado.

E serve como lembrança útil para qualquer candidato que se vende como administrador fora da política.

Quando entra no governo, ele também entra nas regras da política.

13. 22 DE MARÇO DE 2026 — ZEMA ENTREGA MINAS E PARTE PARA O BRASIL

Romeu Zema não terminou o segundo mandato.

Em 22 de março de 2026, renunciou ao governo de Minas Gerais.

Mateus Simões assumiu o cargo.

A razão política era clara.

Zema queria disputar a Presidência.

Na cerimônia de transmissão, repetiu a tese que havia construído desde 2018: Minas estava em situação crítica quando ele chegou, a gestão havia colocado o estado em outro caminho e agora esse método deveria ser aplicado ao Brasil.

É o momento em que a biografia fecha um círculo.

Em 2018, ele dizia:

“Eu administrei empresa. Posso administrar Minas.”

Em 2026, a frase implícita virou:

“Eu administrei Minas. Posso administrar o Brasil.”

A escala aumentou.

E com ela, o tamanho da prova.

Romeu Zema e Mateus Simões na transmissão do governo de Minas em 22 de março de 2026. Foto: Dirceu Aurélio/Imprensa MG, reproduzida por Pleno.News.

14. O PLANO IMPLACÁVEL

Em agosto de 2026, o Novo oficializou a candidatura de Romeu Zema à Presidência, com o senador Eduardo Girão como vice.

O programa recebeu um nome que não tenta parecer moderado:

“Plano Implacável”.

São 81 páginas e 20 temas.

O documento transforma em programa presidencial quase tudo aquilo que Zema repetiu como governador e pré-candidato.

Estado menor.

Privatização.

Reforma administrativa.

Nova reforma previdenciária.

Avaliação por desempenho.

Mais espaço para iniciativa privada.

Endurecimento penal.

Mudanças no Supremo.

Revisão de programas sociais.

Política externa mais alinhada às democracias ocidentais e economias de mercado.

Não é um programa que tenta esconder sua orientação.

É liberal na economia, duro na segurança e confrontador na reforma institucional.

A campanha aposta justamente nisso.

Num país onde candidatos frequentemente tentam ser tudo para todo mundo, Zema prefere dizer que algumas vacas sagradas irão para o abatedouro.

Metaforicamente, esperamos.

Romeu Zema apresenta diretrizes de seu programa presidencial em 2026. Foto: André Martins/Exame.

15. ECONOMIA — “PRIVATIZAR TUDO” É UM SLOGAN. GOVERNAR É A PARTE DIFÍCIL

Na economia, Zema propõe um amplo programa de privatizações e concessões.

O plano menciona estatais como a Petrobras e defende reduzir radicalmente a presença empresarial direta da União.

Em eventos de campanha, ele resumiu a ideia com uma formulação ainda mais direta: quer “privatizar tudo”.

Também defende reforma administrativa, nova reforma da Previdência, revisão de despesas, avaliação de servidores por desempenho, simplificação regulatória e redução de impostos conforme o espaço fiscal.

A lógica é coerente.

Menos Estado empresário.

Mais Estado regulador.

Menos folha e estrutura.

Mais investimento privado.

O problema começa quando slogans encontram empresas estratégicas.

Petrobras não é apenas uma empresa de petróleo.

Banco público não é apenas um banco.

Correios não são apenas logística.

Cada ativo possui monopólios naturais, obrigações públicas, riscos regulatórios, valor patrimonial e implicações geopolíticas diferentes.

Uma agenda séria de privatização precisa responder pelo menos cinco perguntas:

quanto vale?

quem pode comprar?

como fica a concorrência?

qual serviço público continua obrigatório?

quem regula o novo dono?

Vender pode ser excelente negócio.

Vender mal também pode ser uma forma extremamente eficiente de perder dinheiro.

16. PROGRAMAS SOCIAIS — A PORTA DE SAÍDA E A FRASE QUE ENGOLIU A PROPOSTA

Zema afirma que não pretende extinguir programas sociais para quem precisa.

Sua crítica é à ausência de uma “porta de saída”.

O plano propõe conectar beneficiários a capacitação e emprego, estabelecer contrapartidas para pessoas aptas ao trabalho e criar estruturas chamadas Casas da Cidadania.

Ele também sugeriu prêmio financeiro para quem deixa programas sociais e entra no mercado formal.

Existe uma discussão legítima aqui.

Como desenhar transferência de renda sem criar uma armadilha em que aceitar um emprego significa perder imediatamente toda a proteção?

Economistas discutem esse problema em vários países.

Só que Zema escolheu uma expressão que passou a dominar o debate.

Em diferentes ocasiões de 2026, afirmou que o modelo atual estaria criando uma “geração de imprestáveis”.

A frase provocou forte reação.

E por um motivo simples.

Beneficiário de programa social não é diagnóstico moral.

Desemprego pode envolver baixa qualificação, distância, cuidado de crianças, trabalho informal, doença na família, transporte ruim ou salários que não cobrem o custo de aceitar a vaga.

Uma política pode exigir contrapartidas.

Mas chamar parte da população de “imprestável” é outra coisa.

A ironia é que a frase enfraqueceu justamente o ponto técnico que ele queria vender.

O gestor perdeu para o comunicador.

17. TRABALHO — UMA CLT PARA QUEM NÃO QUER CLT

A candidatura também propõe novos modelos de contratação fora da estrutura tradicional da CLT, inclusive pagamento por hora.

Zema argumenta que parte do mercado de trabalho já funciona por bicos, aplicativos e jornadas flexíveis, e que a legislação deveria oferecer uma alternativa formal compatível com essa realidade.

Em 20 de agosto, durante encontro com entregadores em São Paulo, defendeu negociação de tarifa mínima, seguros e formas de formalização sem reproduzir integralmente o modelo tradicional.

A discussão é relevante.

A economia realmente mudou.

Só que flexibilização possui dois lados.

Pode criar liberdade para quem valoriza autonomia.

Pode também transferir risco da empresa para o trabalhador.

Sem férias, previdência, estabilidade de renda ou proteção contra acidente, “flexível” pode significar apenas “sozinho”.

A pergunta certa não é se a CLT de 1943 precisa mudar.

Precisa.

A pergunta é quem fica com os ganhos da flexibilidade — e quem fica com a conta.

18. SEGURANÇA — O PLANO MAIS DURO DE ZEMA

Segurança pública ocupa posição central no Plano Implacável.

A candidatura propõe classificar facções criminosas como organizações terroristas, ampliar integração entre Forças Armadas e polícias, endurecer prisão preventiva, construir presídios de segurança máxima e reduzir a maioridade penal para 16 anos em determinadas condições.

Na abertura da campanha eleitoral, Zema prometeu um “superpresídio” no Norte do país para lideranças de facções.

Também defende penas mínimas mais elevadas para integrantes de organizações criminosas e o fim das chamadas saidinhas em determinados contextos.

A mensagem é clara.

Crime organizado deixou de ser um problema policial local e passou a ser ameaça de Estado.

Há bastante evidência para concordar com a primeira parte.

Facções possuem caixa bilionário, domínio territorial, conexões internacionais e influência dentro de presídios.

A discussão começa na resposta.

Classificar facção como terrorismo altera instrumentos jurídicos, relações internacionais e competências.

Reduzir idade penal exige mudança constitucional e reabre debate sobre encarceramento juvenil.

Superpresídio pode isolar lideranças.

Também pode reproduzir o problema histórico de prisões que se tornam centros de recrutamento se o sistema inteiro ao redor continuar falhando.

Ser implacável é fácil no título.

Difícil é ser eficaz.

19. O “NOVO STF” — UMA REFORMA QUE O PRESIDENTE NÃO PODE FAZER SOZINHO

Zema transformou o Supremo Tribunal Federal num dos principais adversários simbólicos de sua campanha.

Seu programa propõe ao Congresso mudanças profundas na Corte.

Entre as ideias apresentadas estão idade mínima de 60 anos para ministros, mandato de 15 anos e restrições a negócios jurídicos envolvendo parentes de integrantes do tribunal.

A campanha chama isso de um “novo Supremo”.

É uma bandeira de alto impacto político.

Mas a arquitetura constitucional impõe um limite imediato.

O presidente não redesenha o STF por decreto.

Mudanças desse tipo exigem Congresso e, em vários casos, emenda constitucional.

Ou seja, para cumprir uma das promessas mais confrontadoras da campanha, Zema precisaria fazer uma das coisas mais políticas que existem:

construir maioria.

Negociar com deputados.

Negociar com senadores.

Aceitar texto diferente do original.

A empresa encontra novamente a República.

20. BRICS FORA, OCDE DENTRO

A política externa do plano também foge do consenso tradicional brasileiro.

Zema propõe retirar o Brasil do Brics de forma diplomática, preservando relações comerciais bilaterais, e retomar a tentativa de adesão à OCDE.

Também defende transformar o Mercosul numa zona de livre comércio mais flexível, permitindo novos acordos.

A visão é nitidamente econômica.

A diplomacia deveria aproximar o país de mercados, regras institucionais e democracias liberais.

O argumento dos defensores é que o Brasil ganharia previsibilidade, abertura e alinhamento com economias desenvolvidas.

Os críticos apontam que sair do Brics poderia reduzir influência num bloco que inclui alguns dos maiores parceiros comerciais do Brasil — principalmente a China — e abrir mão de um espaço político importante num mundo multipolar.

Zema responde que comércio deve continuar independentemente do fórum político.

Pode funcionar.

Mas política externa não é apenas escolher os amigos mais eficientes.

Às vezes é justamente manter uma mesa onde pessoas que você não escolheria como amigas ainda precisam conversar.

21. EDUCAÇÃO, SAÚDE E UM FUNDO DE AÇÕES PARA QUEM ACABOU DE NASCER

Nas áreas menos barulhentas do programa, aparecem propostas bastante específicas.

Na educação, o plano prioriza educação básica, português e matemática, ampliação de creches, ensino técnico e vinculação maior de recursos a indicadores de desempenho.

Na saúde, defende telemedicina, contratação complementar da rede privada para reduzir filas e expansão de modelos de gestão por organizações sociais e parcerias público-privadas.

Há também uma proposta particularmente Zema.

O programa “Sócios do Brasil” prevê aplicar R$ 1 mil para cada recém-nascido em fundos de ações, com saque apenas aos 18 anos.

A intenção declarada é estimular formação de patrimônio e educação financeira desde a infância.

É uma ideia curiosa porque mistura política social com mercado de capitais.

Em vez de entregar apenas consumo presente, o Estado compraria uma pequena participação no futuro financeiro do cidadão.

Mas surgem perguntas.

Quem administra o fundo?

Qual o custo anual?

Como proteger o patrimônio de ciclos de mercado?

O benefício seria universal ou focalizado?

E R$ 1 mil hoje produz qual valor real depois de 18 anos?

É talvez a proposta mais simbólica de Zema.

Até o berço vem acompanhado de uma carteira de investimentos.

22. O PATRIMÔNIO — O SEGUNDO CANDIDATO MAIS RICO DA DISPUTA

Na declaração apresentada à Justiça Eleitoral em 2026, Romeu Zema informou patrimônio de aproximadamente R$ 178,7 milhões.

O valor o colocou entre os candidatos mais ricos da eleição presidencial, atrás apenas de Augusto Cury entre os nomes registrados naquele momento.

Grande parte do patrimônio está associada a participações empresariais e investimentos ligados à estrutura familiar.

O dado não demonstra competência presidencial.

Também não demonstra conflito de interesse automaticamente.

Mas exige uma atenção óbvia.

Um presidente com grande patrimônio empresarial precisa manter separação rigorosa entre política pública e interesses privados.

Para alguém cuja principal credencial é justamente ter vindo do mundo dos negócios, transparência não é detalhe.

É parte central do produto.

23. QUEM É ZEMA QUANDO TIRAMOS A PLANILHA?

Existe o herdeiro de uma empresa familiar centenária.

Existe o executivo que expandiu essa empresa durante décadas.

Existe o outsider que venceu a primeira eleição da vida com 71,8% dos votos no segundo turno.

Existe o governador que normalizou pagamentos, buscou equilibrar contas e atraiu investimentos.

Existe o administrador que deixou Minas ainda com uma dívida gigantesca, porque dívidas públicas não obedecem a biografias simples.

Existe o liberal que conseguiu aprovar a privatização da Copasa.

Existe o político que entrou em conflito com professores, servidores e oposição.

Existe o governador multado pelo TSE por publicidade institucional em período vedado.

Existe o homem que fez uma comparação regional que virou acusação de preconceito.

Existe o candidato que propõe privatizações amplas, mudanças no STF, saída do Brics, nova previdência e endurecimento penal.

E existe o comunicador que consegue transformar uma discussão técnica sobre programas sociais numa crise ao usar a expressão “geração de imprestáveis”.

Tudo isso é Romeu Zema.

O erro seria escolher apenas uma versão.

Para admiradores, ele representa uma ruptura com a política profissional e a prova de que disciplina administrativa produz resultado.

Para críticos, representa a tentativa de reduzir problemas sociais complexos a lógica empresarial e de transformar direitos em linhas de custo.

As duas leituras encontram material na mesma trajetória.

E é justamente por isso que a candidatura é interessante.

EPÍLOGO — UM PAÍS NÃO FECHA ÀS SEIS DA TARDE

Romeu Zema passou boa parte da vida administrando empresas.

Empresas têm dono.

Objetivo.

Produto.

Cliente.

Concorrente.

Lucro.

Prejuízo.

Se uma operação não funciona, você pode encerrá-la.

Se uma loja não dá resultado, pode fechar a porta às seis da tarde e nunca mais abrir.

Um país não.

O hospital deficitário continua recebendo paciente.

A escola rural continua tendo criança.

A estrada pouco movimentada continua conectando alguém.

A polícia continua entrando onde ninguém quer investir.

A Previdência continua pagando quem já não produz.

E a democracia continua ouvindo gente que o gestor gostaria de mandar embora da reunião.

Isso não significa que governos não precisam de eficiência.

Precisam desesperadamente.

O desperdício público não vira virtude só porque atende uma finalidade social.

Mas eficiência também não responde sozinha o que é justo, prioritário ou universal.

É aí que está o verdadeiro experimento Zema.

Ele não precisa provar que sabe administrar uma empresa.

Nem que conseguiu administrar Minas melhor em vários aspectos do que o cenário que encontrou.

Isso já faz parte de sua biografia.

Em 2026, a pergunta é maior.

O Brasil precisa de um gerente?

Talvez.

Mas antes de entregar a chave, vale lembrar uma coisa.

O Brasil não é uma empresa em crise.

É uma sociedade com 200 milhões de sócios que nunca concordaram nem sobre qual negócio estão tentando construir.

FONTES PRINCIPAIS

1. Agência Minas — perfil biográfico de Romeu Zema

2. ALMG — eleição de Romeu Zema em 2018

3. TRE-MG — resultado do 2º turno de 2018

4. TSE — reeleição de Romeu Zema em 2022

5. Governo de Minas — posse e diagnóstico fiscal de 2019

6. ALMG — relatório institucional sobre endividamento de Minas

7. ALMG — piso da educação e veto de 2024

8. TSE — multa por conduta vedada nas eleições de 2022

9. UOL — declarações sobre Sul, Sudeste, Norte e Nordeste em 2023

10. ALMG — emenda que retirou exigência de referendo para a Copasa

11. ALMG — aprovação definitiva da privatização da Copasa

12. Agência Minas — conclusão da desestatização da Copasa em 2026

13. Governo de Minas — sucessão após renúncia de Zema

14. TSE — candidaturas presidenciais protocoladas em agosto de 2026

15. CNN Brasil — candidatura, vice Eduardo Girão e Plano Implacável

16. Exame — principais propostas do Plano Implacável

17. CNN Brasil — proposta de reforma do STF

18. CNN Brasil — saída do Brics e entrada na OCDE

19. CNN Brasil — proposta de R$ 1 mil para recém-nascidos

20. Estado de Minas — resumo temático do Plano Implacável

21. CNN Brasil — declarações sobre programas sociais em 2026

22. UOL — patrimônio declarado por presidenciáveis em 2026

23. Folha de S.Paulo — início da campanha de 2026 e proposta de superpresídio

24. UOL — encontro com entregadores e propostas sobre trabalho por aplicativo, 20/08/2026

Verificação factual: 20 de agosto de 2026. Este perfil não recomenda voto.

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